16/08/2015
por Douglas Vasquez
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O segundo texto é inspirado na segunda faixa do álbum, que também é bastante fictícia – kind of. Expliquei tudo sobre o Projeto 1989 aqui.

“Havia uma garota conhecida por todos e por ninguém…”

Estamos na grande mesa de jantar recheada de coisas que nenhum de nós dois jamais iremos comer. Ela sorri como se o seu mundo fosse sempre colorido, e sorri assim desde que cheguei aqui, dois dias atrás. Ela fala sobre coisas incríveis, lugares dos quais já visitou com os pais – falecidos em um trágico acidente – e lugares dos quais gostaria de visitar. Tenho certeza que depois deste jantar surgirá com alguma ideia que eu nem imaginaria ser possível de realizar. Ela murmura claramente “que eu já devo ter ouvido falar dela antes” com a sua voz musical enquanto eu tomo um gole da taça de vinho tinto e me deixa sem saber o que responder por um momento. Eu apenas digo a ela que “tudo que ouvi falar era que ela era uma ótima cavalgadora“. Ela fecha os olhos como se fosse piscar bem devagar e volta a sorrir com o canto da boca. E já sei que agora ela quer cavalgar, “pelo infinito jardim que há lá fora“, como diz ela.

Não estava errado, ela realmente é boa em tudo o que faz e me deixa para trás mais vezes do que eu posso contar. Quando me canso de persegui-la, paro e vejo-a correr sorrindo, seu vestido voa como se dançasse conforme sua melodia. Alcanço-a e a envolvo em meus braços, ela respira ofegante e olha para baixo tímida, o sorriso contornado com batom vermelho. Seu beijo tem gosto de cereja e seus lábios são macios; o céu está limpo e seus olhos azuis brilham como cristais.

E é assim nas semanas que seguem. Nos divertimos como duas crianças e cada dia é melhor do que o anterior. Não há regras. Ela é criativa e consegue me persuadir a fazer qualquer coisa, me transformou em arte, pintou um quadro do qual eu nunca soube onde foi colocado – embora ela me garanta que está em lugar especial -, a mansão tem muitos lugares dos quais eu nunca pude ir, nem conseguiria, há passagens secretas. A decoração é clássica e com muitos elementos, alguns cômodos se tornam ofegantes. Andamos de bicicleta a manhã toda, inclusive por dentro do casarão. Outra noite dançamos, e aquilo pareceu não ter fim.

É verdade, sim, que ela me deixava sem fôlego. Mas tudo começou como um jogo, ela tem uma longa lista de namorados e rola pela alta sociedade uma aposta para ver quanto tempo o próximo cara aguenta sozinho com ela. No começo, eu sabia o que queria e não pretendia passar do primeiro mês, porém por tempo eu estive errado em relação a sua personalidade. Voltei todas as vezes que saí no meio da noite. Até que um dia tudo se tornou tão entediante que eu já estava me preparando para a próxima. Já havia ganhado seu coração e estava quase para ganhar a aposta, e então, as belas mentiras se tornaram grandes tempestades.

“Você joga, eu gosto dos jogadores. Você não viu nada.” Ela sabia. De tudo. Foi então que eu percebi que ela havia virado o jogo à seu favor. Ela se diverte enquanto grita e joga pequenas coisas da mobília pra cima de mim. No fundo ela é só uma garota solitária, mas insiste em gritar “eu tenho um espaço em branco, vou escrever seu nome!“, pondero quantos espaços em branco ela deve ter naquele lugar – será que é onde está o maldito quadro? Ela chora e o dia lá fora já não é mais brilhante. Ela me usa e eu não posso me ver longe dela.

Meu carro está em pedaços. Minhas roupas já quase não existem mais, há buracos e pedaços por todos os lados. A cada cômodo algo extravagante me encara, cavalos, cabras, gatos e mais gatos. Suas roupas suaves estão no passado, agora ela veste cores escuras e maquiagens pesadas. Sedutora e encantadora ao mesmo tempo, um pesadelo em forma de sonho americano. Ela corre até a varanda com uma mala cheia de roupas, já imagino de quem seja e sem se preocupar com o que está pela frente, ela joga fogo uma a uma enquanto ri histérica e grita “vocês só querem amor quando há tortura! Mentiras! Mentiras! Mentiras!“. Ela está fora de controle.

Enquanto está distraída, eu fujo. Corro o mais rápido do que  os meus pés podem aguentar. Passo por um quadro, vejo meu rosto nele, e há uma faca cravada no meio da testa. Quando dou por mim, já estou passando pelos portões. A mansão ficou para trás.

Ela é insana e está pronta para outra.

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