03/04/2017
por Douglas Vasquez
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ESTE POST CONTÉM SPOILERS SOBRE A SÉRIE TODA. CONTINUE POR SUA CONTA E RISCO 🙂

Ninguém sabe ao certo quanto impacto tem na vida dos outros. Na maioria das vezes, não temos ideia. E ainda assim, forçamos a barra do mesmo jeito.

A nova série da Netflix, “13 Reasons Why” é muito bem-vinda. Adaptada do aclamado livro de mistério do autor estaduniense Jay Asher, foi publicado no Brasil há alguns anos pela Editora Ática com o título de “Os Treze Porquês” — a razão da decisão da Netflix pela não-tradução do nome da série para o português nunca ficou muito clara. Trazendo Selena Gomez na produção executiva, a cantora sempre esteve bastante envolvida na produção da adaptação da história, tendo início há quase 7 anos atrás, quando ainda estava cotada para interpretar a jovem  protagonista, Hannah Baker.

“Alguns de vocês se importaram. Nenhum de vocês se importou o suficiente. Nem mesmo eu.”

A série é narrada por Hannah através de fitas cassetes, contando os treze motivos pelo qual cometeu suicídio. Em cada fita há duas histórias, dois lados, duas pessoas das quais ela de alguma forma acredita ser responsável pelos acontecimentos em cadeia que a levaram lá. Do ponto de vista de alguém que nunca leu o livro, mas que se conectou com a história em um nível profundo, a trama pareceu muito bem construída ao intercalar os momentos de tensão do presente, enquanto Clay ouvia as fitas em agonia, com o passado lentamente se compondo de cores fortes e vivas até o cinza e as cenas concentradas em ambientes fechados, durante a noite.

Cada episódio é focado em um personagem que é o tema central da fita em questão. Clay Jensen não é o primeiro a receber a caixa com as sete fitas gravadas por Hannah, que devem ser passadas apenas para as pessoas mencionadas, que de alguma forma impactaram em sua vida e por esse motivo, levado pela culpa e desespero, enquanto lentamente ouve o que a jovem tem a dizer ele procura fazer justiça da sua própria maneira questionando os outros e os pressionando para tomarem as atitudes corretas e a honrarem da forma que não o fizeram enquanto ela estava viva.

Katherine Langford interpreta Hannah Baker.

Por quê uma menina morta mentiria?

A história toca em diversos assuntos muito pouco abordados em séries de televisão adolescentes, indo muito além desse estigma sendo interessante também para jovens adultos e adultos em si. É triste o quanto é notável com muita clareza como Hannah vai perdendo o brilho nos olhos enquanto os episódios evoluem. Pisando em ovos de forma extremamente necessária, a Netflix usa e abusa de cenas gráficas fortes quando chega em alguns dos pontos mais importantes da história de Baker: os estupros, o suicídio e as agressões físicas.

Algumas pessoas diriam que Hannah Baker não pode culpar outras pessoas pela sua decisão de terminar com sua vida e elas têm todo o direito de acreditarem nisso. Mas a depressão é uma doença que se desenvolve de forma traiçoeira e não é diferente quando acontece com ela. Aos poucos, começando com o cyberbullying que rotula a jovem recém chegada na atenciosa (só que não) Liberty High de “vadia fácil”, passando pela perda de pessoas que ela considerava amigas, ser objetificada por uma lista degradante e infantil, ver uma pessoa ser estuprada sem saber como ajudar, até o ápice, quando muitas coisas acontecerem de uma vez só, ela chega ao ponto de estar tão entorpecida e mergulhada em seus problemas que não sente mais nada. É uma consequência de diversos sintomas pós-traumáticos, para ela pouco importa.

Se você pudesse, voltaria atrás? 

Me pegou de surpresa temas tão importantes sendo tecido de formas tão reais no decorrer dos episódios. De forma alguma contados de maneira rasa, cada personagem ganha diversas camadas que nos conta que há muitos lados para uma mesma história e que ninguém sabe o que cada um está realmente enfrentando na vida. Os personagens se tornam complexos e profundos e nos tornamos apegados e preocupados também com seus problemas, não procurando justificativas para as atitudes que escolheram tomar, mas genuinamente interessados em entender porquê fazem o que fazem e quem são no íntimo.

Os recortes de uma fase tão importante em nossas vidas é muito bem retratado por também nos mostrar que ela não apenas morreu e deixou um monte de fitas para que as pessoas responsáveis vissem o sentido que suas ações tomaram, mas também por nos introduzir os pontos de vista dos adultos envolvidos na trama. Os pais de Hannah começam a se perguntar se realmente conheciam a sua filha e se havia uma parte obscura dela que deixou dicas sobre seu estado psicológico pedindo por uma ajuda que eles não notaram. O desespero da Sra. Baker, interpretada pela incrível Kate Walsh, é de partir o coração em mil pedaços e sua dor é visível nos paralelos entre presente e passado. A mãe de Clay caminha pela mesma direção, preocupada pelas atitudes repentinas que ele toma após a morte de Hannah, constantemente perguntando a ele de que forma pode ajudar para que ele saiba que não está sozinho.

13 Reasons Why” definitivamente não é uma série para todos os gostos. A sua narrativa arrastada em alguns pontos podem se tornar maçantes e desviar do real foco de todos os treze episódios, mas em contra-ponto, são estes momentos mais lentos que nos proporcionam a profundidade de conhecimento em cada personagem envolvida na história. É uma série muito necessária que toca em feridas que nos dias de hoje ainda são consideradas tabus e em nenhum momento lida esses problemas de forma romantizada, é importante falar sobre depressão, bullying, assédio e suicídio na adolescência e é mais importante ainda mostrá-los como são: nada bonitos, nada divertidos, nem um pouco banalizados. É difícil, desconfortável e revoltante. No fim do dia, todos fomos Hannah Baker. Todos fomos um dos treze porquês de alguém.

E isso não é nada legal.

A Netflix aproveitou a deixa da série e criou um website onde você pode procurar ajuda anonimamente por telefone, ou via internet. “No momento em que você começa a falar sobre isso, tudo melhora.” 

Se você precisa falar com alguém sobre o que está sentindo, acesse: 13reasonswhy.info

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23/02/2017
por Douglas Vasquez
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Algumas séries de tv são como velhos amigos: você sempre pode contar com elas depois de um longo dia para rir, desabafar ou apenas para se desligar do mundo e descansar, se sentir abraçado. O termo “comfort tv” é, em um simples resumo, exatamente isso.

Sabe aquela série que você sempre acaba assistindo depois de perder longos minutos procurando algo “interessante” na Netflix? É ela. É como terapia, séries (ou episódios) que você assiste para se sentir bem e talvez compreendido.

Mesmo antes de conhecer o termo, eu já colecionava diversas séries que eu sempre corria no fim do dia. Algumas vezes por motivos diferentes. Cada série aborda um tema que eu me sinto diretamente conectado, em um mundo fictício do qual eu gostaria de fazer parte ou do qual eu me sinto representado.

Blair e Serena, de Gossip Girl.

A primeira de todas é lá de 2008. Quando eu comecei a ver Gossip Girl, eu já tinha o sonho de viver em Nova York estampado na testa. A motivação para criar um blog 1 ano depois não foi exatamente essa, mas também não posso negar que foi uma grande influência. Quase 10 anos depois estou aqui e ainda assino alguns posts com o famoso “xoxo”. Glee veio logo depois, porque todo mundo sabe que eu sou o louco dos musicais (e quem é das antigas lembra muito bem que meu primeiro blog era sobre HSM); A minha estrela interior se sentia entendida toda vez em que Rachel Berry estava na tela.

Meu conforto ao ver Sex and the City não mudou, mas evoluiu quando The Carrie Diaries começou a ser exibida (e mesmo depois que foi cancelada). Além da trama ser ambientada em Nova York na década de oitenta e abordar moda e música, a jovem Carrie está se descobrindo no universo da escrita. E não que eu enfrente exatamente os mesmos problemas que ela, mas nós compartilhamos dos mesmos anseios, nervosismos e ambições. Eu assisto até hoje para me sentir entendido, para buscar inspirações do que escrever ou para simplesmente entrar no clima da escrita.

Eu poderia continuar por horas falando sobre o mesmo sentimento por Supernatural e da mais recente na família, Grey’s Anatomy (!), mas agora, quero divagar sobre Younger e a dificuldade mais ridícula em ser um jovem millenial na casa dos vinte e poucos.

Em Younger, Liza (Sutton Foster) é uma mulher de 40 anos que ficou de fora da área editorial, sua profissão por amor, por quase duas décadas para ser mãe e quando a filha(única, aliás) vai embora para estudar em outro país, se vê, de certa forma, livre para tentar recomeçar de onde havia parado. Pronta para um novo começo, ela se divorcia do marido patriarcal e preguiçoso (aquele típico americano que se acha o engraçadão) e parte em busca de oportunidades de emprego.

Mas o mundo de Liza não é todo colorido quando ela coloca o pé para fora de sua casa no subúrbio de Coney Island, ao contrário do que ela esperava, a sua experiência de anos como editora já não vale de nada para as Editoras da cidade, que buscam por uma personalidade jovem e atualizada. Ter ficado tantos anos fora desse universo fez com que ela perdesse o seu valor, levando-a a brilhante (cof cof) ideia em fingir ter 26 anos de idade. E só então, após uma make-over rejuvenescente, Liza não é apenas aceita de volta na indústria editorial, mas disputada, por ser a profissional muito bem capacitada que ela é, em uma versão mais jovem, prodígio.

YoungerTV tv land younger

A sitcom de comédia da TV Land não tem apenas a cidade como fator que instantaneamente a tornou uma das minhas comfort tvs, ou a grande presença da moda, a série traz em seus curtos 12 episódios um tom humorístico muito inteligente disfarçado de bobinho e fala (mesmo que de uma forma bem romantizada) sobre o cotidiano de trabalhar em uma editora, o prazer de estar envolvido em um universo que a gente tanto ama e sendo pago para isso. É o dream job de todo bookworm.

Liza ganha sem querer querendo uma nova vida com novos amigos (a Kelsey, interpretada por Hilary Duff, é aquela melhor amiga que a gente queria ter) e um namorado mais jovem, que apesar do estilo bad boy e trabalhar como tatuador, é o canceriano em pessoa (e interpretado pelo INCRÍVEL Nico Tortorella). Embora a própria série não se leve tão a sério e se embole em algumas tramas aqui e ali, é o abraço apertado perfeito que a gente precisa depois de uma longa semana.

Younger é autocrítica e nos proporciona momentos interessantes onde debate o vício das selfies, o abuso das hashtags, feminismo, indústria editorial moderna, sendo esse, um dos temas mais bem aproveitados durante as três temporadas já exibidas; a editora em que Liza trabalha está aprendendo a se adaptar exatamente no momento de transição entre livros físicos e digitais. Tem até um episódio em que a editora busca se encaixar nos “livros de Youtubers” e patina ao assinar com alguns influenciadores digitais. Às vezes Liza se vê inserida em um mundo tão superficial e preocupado com a quantidade de likes no Instagram que chega a ser engraçado de tão real que é.

No fim das contas, não é preciso de muito para fazer meu coração saltar do peito e me deixar colado na tela do computador por uma maratona de vários episódios madrugada a fora.

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05/01/2017
por Douglas Vasquez
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O LIVRO DE MEMÓRIAS, 2016 | EDITORA SEGUINTE | 352 PÁGINAS | ISBN 8555340179 | COMPRE

O que você faria se soubesse que toda a sua vida sumiria de sua memória em pouco tempo? Como reagiria quando soubesse que todos os seus planos e sonhos se tornariam impossíveis de alcançar por causa de uma doença incurável? Esse é o terrível desafio que Sam McCoy, personagem principal do romance de Lara Avery enfrenta em “O Livro de Memórias”.

Sim, este é um livro sobre uma garota doente. Sammie é uma personagem que me tirou do sério inúmeras vezes e me fez rir em várias outras também. Ela é uma garota que está se formando no ensino médio e sempre deu o melhor de si para se tornar a melhor em tudo o que faz. Até descobrir que sofre de Niemann-Pick tipo C, uma doença que faz o seu corpo parar de funcionar lentamente, com sintomas terríveis, como a perda de memória. Então você já imagina que este livro terá seus momentos tristes, mas eles incrivelmente foram poucos, na realidade.

Sabendo que sua doença não tem cura e é extremamente rara em jovens da sua idade, Sammie está no meio de um furacão, por não existir casos suficientes para serem comparados com o dela, então decide escrever um livro contando para a “Sammie do futuro” (a versão dela mesma com a demência avançada) um punhado de histórias sobre pequenas coisas do seu cotidiano, amor, primeiras vezes, amizade e família.

“Não estou me iludindo: sei que estou doente. Mas não vou me preparar para o fracasso. Vou conseguir fazer tudo.”

Sammie é determinada e não deixa nada ficar no caminho do seu objetivo, tem um humor incrivelmente sarcástico e auto-depreciativo, não sabe ser sociável e quando vai à uma festa prefere ir até a estante explorar alguns livros e está frequentemente lembrando a si mesma que não é um robô. Essas são características tão relacionáveis que em diversas situações eu me vi Sammie McCoy e me peguei pensando e se fosse comigo?

Ela é uma personagem intensa, que explora seus limites pessoais e escreve para o futuro sem se dar conta de que a Sammie do futuro já está ali, falhando. Conforme a doença deteriora o seu corpo e ela tem episódios de perda de memória, ela começa a escrever de forma infantil e sem critério algum em seu livro de memórias; essa foi a forma que a autora encontrou para nos fazer entender o seu estado mental enquanto o livro avança.

O livro é interessante por mostrar que os seus problemas são seus para contar e não dos outros. Ser estereotipado é horrível e Sam se recusa a deixar-se definir pela NP-C mesmo quando seus planos se esvaem por entre seus dedos e ao tropeçar em alguns momentos, como deixando de contar para a sua melhor amiga, até que sua perda de memória faz com que elas percam um campeonato de debate importante. Sam toma o controle de sua vida ao contar sua história por trás da doença através do livro.

“Às vezes a vida é só terrível. Às vezes a vida te dá uma doença estranha. Às vezes a vida é muito boa, mas nunca de um jeito simples. E quando eu olhar para trás vou saber que tentei.”

Lara Avery cai no senso comum em alguns momentos, um deles ao criar um triângulo amoroso entre Sam, Stuart (seu crush escritor super talentoso desde a pré-adolescência) e seu melhor amigo desde que se entende por gente, Cooper. Mesmo que o romance tenha sido muito bem escrito em ambos os lados, mesmo que eu tenha torcido para os dois rapazes, mesmo que eles tenham sido importantes para a construção da personalidade de Sammie, que passa de uma garota intensa e rígida com as pessoas a sua volta para o extremo oposto, eu gostaria que a abordagem sobre a doença durante o livro tivesse sido um pouco mais detalhada, afinal, NP-C não é algo que a gente ouve falar todos os dias, né?

Este não é mais um “A Culpa é das Estrelas”, ou “As Vantagens de Ser Invisível”. É um livro completamente diferente por ter uma personagem tão real e bem escrita, que ao chegar no final da história você sofre, pois ela se torna sua amiga.

A doença de Niemann-Pick tipo C é desconhecida da maior parte da população e, muitas vezes, até da própria comunidade médica. Está associada a um acúmulo progressivo e anormal de material gorduroso dentro das células, decorrente de uma anormalidade no transporte intracelular de vários glicolipídios e do colesterol, o que provoca níveis excessivos de colesterol e outros lipídios no fígado, baço e cérebro.

Fonte: Actelion

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