07/08/2017
por Douglas Vasquez
Comente!

Hoje em dia é vintage e muito cool dizer que viveu a era das locadoras e viu muitos filmes na já aposentada fita VHS. Eu mesmo ainda guardo alguns dos meus filmes favoritos durante a infância e cultivo um amor crescente pelo formato, que vive muito bem na mesma categoria que os vinis (eles são insanamente mais populares que os CDs hoje em dia, a produção teve um crescimento incrível nos últimos anos) e as fitas cassetes, estas já se encontram em um vale além da nostalgia.

Nos últimos meses eu visitei alguns sebos no centro da cidade (que aliás vai render um vlog para o canal com as *migas*) e me vi cercado por fitas VHS e de repente tudo voltou à tona. Por onde eu olho encontro algo relacionado ao VHS e não vou negar: AMO! E foi em uma dessas coincidências da vida que encontrei o Offtrack Outlet.

Existe um nicho de designers que recriam as embalagens das fitas dos filmes mais recentes e que colecionam novos e usados, fãs permanentes da nostalgia trazida por esta mídia que foi para muitos de nós, como um melhor amigo back in the day. Como a internet tá aí pra tudo e não me surpreendo com mais nada, entre vários perfis, o “OTO” me chamou muito mais atenção pelo cuidado e fidelidade ao detalhes aplicados à produção destes VHS.

Agora, senta aí no banco do passageiro e vamos fazer uma viagem ao passado para admirar esse trabalho mais do que incrível.

Todos os detalhes do encarte são bem pensados para reproduzir de forma crível como as embalagens dos VHS originais, desde o enquadramento do texto, às marcas de uso nas bordas até as etiquetas das locadoras.

E não pára por aí, não! Todas as fitas são completamente funcionais, o Offtrack faz questão de gravar os filmes em fitas virgens e customizá-las como as originais para serem assistidas, caso você esteja se sentindo muito nostálgico — ou queira tirar o VHS player de cima do guarda-roupas.

Alguns filmes possuem ótimas trilhas-sonoras e para completar o combo, ele cria algumas fitas cassetes também gravadas à moda antiga. Só não dá saudade de ter que rebobinar tudinho antes de assistir e ouvir de novo!

Existem pouquíssimas locadoras no Brasil atualmente, com a popularização dos streamings e do Youtube, a mídia física perdeu a procura e boa parte do mercado está nas mãos de nós colecionadores. O descaso das distribuidoras com o home-vídeo brasileiro que miram no lucro e não na qualidade dos produtos é desanimadora, e um trabalho como esse, dá muito gosto de ver.

As fitas podem não ser a mídia de melhor qualidade para assistirmos à um filme hoje em dia, mas confessa, a gente adora a estética!

Conheça o Instagram do Offtrack Outlet clicando aqui e lembrem-se de me marcarem em suas VHs favoritas!

COMPARTILHE ESSA POSTAGEM:

22/07/2017
por Douglas Vasquez
Comente!

Nem tudo são flores na indústria da música, isso não é novidade. De chefões das gravadoras à produtores sacanas, o meio fonográfico não é um ambiente particularmente saudável para jovens artistas, e a busca pela liberdade de expressão em seus trabalhos musicais é uma batalha recorrente por muitos deles. Com a americana Sky Ferreira não foi nada diferente.

Sim, você leu o nome dela certinho! Sky é filha de um pai brasileiro e uma mãe portuguesa – por isso o seu sobrenome tão “tupiniquim” – e apesar da familiaridade com a nossa cultura e língua, ela foi criada por sua avó nos Estados Unidos. A cantora nasceu em Los Angeles e desde o início de sua vida transita pelo meio artístico; sua avó era uma das personal stylists do rei do pop, Michael Jackson e ela cresceu convivendo com o cantor na casa dele. Quando tinha treze anos, Michael incentivou a pequena Sky a se matricular em aulas de ópera para aprimorar seu canto lírico e desde então, cantar se tornou a válvula de escape da cantora.

A personalidade de Sky sempre foi bastante indomável. Aos quatorze anos ela saiu da escola ao assinar o contrato de gravação com uma grande gravadora, a EMI, sob a promessa de uma alta liberdade criativa. Ferreira não sabia na época, mas ficou os seis anos seguintes refém de um contrato que a impedia de lançar seu álbum de estreia.

A ideia dos figurões da EMI era a de que ela deveria ser a próxima Britney (quem já ouviu essa história um milhão de vezes?) e tentaram moldar o som que a cantora colocaria no mundo. Aos quinze, o debut da cantora havia sido adiado diversas vezes e muitos singles foram lançados na tentativa de emplacar um sucesso na música pop – o disco passou por muitas fases e gêneros, e também teve muitos nomes, de “Wild at Heart” à “I Am Not Alright” até que teve seu orçamento cortado em mais da metade, implicando com que Sky investisse seu próprio dinheiro no lançamento dele.

Precedendo o disco, uma versão vazada de “Everything is Embarrassing” obrigou a gravadora a soltar um EP, que no fim das contas salvou momentaneamente a carreira da Sky do náufrago iminente. “Ghost EP“, de 2012, é uma compilação de cinco músicas que explicitamente mostram a mudança sonora que seu álbum sofreu durante seis anos e também representa um “ponto final” em toda a batalha que ela teve com a EMI, sendo então lançado pela Capitol Records. Com dois singles, “Everything” foi surpreendentemente aclamado pela crítica, sendo considerado pelo The New York Times uma das jóias mais preciosas da música pop daquele ano.

Night Time, My Time” é o debut tão aguardado da cantora, lançado em Outubro de 2013. O disco explora diferentes gêneros musicais – um reflexo de seus quase sete anos em produção – do synth pop ao rock acústico, as faixas fazem parte metaforicamente de uma grande conversa em busca da própria liberdade musical, e de uma forma geral pode ser classificado como pop-rock com um pé no rock progressista dos anos 1980. O aclamado site musical, Pitchfork, em sua resenha chamou o disco de “uma das mais interessantes peças de pop-rock lançadas em 2013” e ainda declarou ser “um alívio e também um choque, que o álbum tenha finalmente sido lançado”.

“É porque você sabe o meu nome?”, canta Sky em “I Blame Myself”, música que faz referência à fama e sua reputação de garota problema em Hollywood. Durante todo o processo de produção do álbum, Sky enfrentou sérios problemas de imagem que vão de socialite mimada à sua prisão por porte de LSD em 2013, há até quem acredite que sua gravadora assinou com Halsey para moldá-la na artista pop genérica que Sky se recusou em ser. Sky discretamente acusou a semelhança entre seu clipe para “Night Time, My Time” com o de estreia de Halsey, “Ghost”, o que alimentou mais ainda toda a teoria. “Você acha que me conhece tão bem! (…) Só quero que você entenda, que eu me culpo, pela minha reputação”, canta.

Entre a coleção de músicas no disco, as que se destacam facilmente são “You’re Not The One”, música que foi o primeiro single do álbum e incorpora influências de David Bowie e aposta nos elementos de percussão e guitarra elétrica para o instrumental, enquanto Sky investe nos vocais que lembram os trabalhos musicais de bandas de indie rock do final dos anos ’80, “24 Hours” (minha pessoal favorita), que bebe bastante da sonoridade do gênero synth-pop e traz um instrumental mais nostálgico e upbeat, “Heavy Metal Heart” e “I Will“, abusam das guitarras elétricas e das batidas da bateria entrelaçadas aos vocais mais acústicos de Sky, dando a impressão de que as músicas foram gravadas ao vivo, em apenas um take, além das já citadas, “I Blame Myself” e “Nigh Time, My Time”.

A capa do álbum apresenta uma Sky com o olhar desafiador, nua embaixo do chuveiro de um banheiro verde, o que, claro, gerou muita controvérsia e foi censurada em diversos países – inclusive no Brasil, onde parte da imagem foi coberta por um adesivo com o nome do disco. Sky foi fotografada pelo argentino Gaspar Noé, que deu a ela total liberdade criativa no ensaio. “A maior parte das pessoas que tiveram um problema com a capa foram homens. (…) Estou criando arte e fazendo algo autêntico ao meu trabalho, e é isso o que importa”, declarou na época para a revista NME.

Entre tantos altos e baixos, Sky ainda abriu a Bangerz Tour de Miley Cyrus e teve tempo de dar uma passada pelo Brasil, onde participou do programa do Danilo Gentili, que foi altamente criticado internacionalmente pelas perguntas sexistas e humor ácido do programa. Quando citada no Twitter pela publicação DIY, Sky agradeceu por terem notado o assédio e ainda comentou: “Eu não estava esperando isso e no início achei que fosse tipo uma barreira de linguagem, mas durante a entrevista eu me toquei. Com certeza, não foi a primeira vez que tive que lidar com isso”, o vídeo da entrevista está disponível no Youtube e dá pra notar explicitamente nos primeiros minutos em como a cantora ficou constrangida com as perguntas.

Atualmente, Sky está trabalhando em seu segundo disco e coincidentemente temos a sensação de dèjá-vu. Anunciado com o título de “Masochism“, ela vem entrando e saindo do estúdio com diversos produtores e tendo que investir seu próprio dinheiro na produção do álbum, pela falta de apoio da gravadora. Em 2015, uma versão demo da música “Guardian”, parte do segundo álbum, caiu na internet após Sky soltar vários snippets da canção em seu Instagram e anunciar que um vídeo para ela seria gravado assim que possível. A sonoridade da música é ainda mais oitentista do que os trabalhos que a antecederam e encontra na melancolia dos versos um vislumbre da forma que “Masochism” está tomando. “Quero me ver livre da escuridão que está profunda dentro de mim, livre de todos os olhares que vejo tomando conta de mim”, canta — ouça aqui.

“Sempre pensei que eu deveria sofrer para que no fim fosse algo real ou fazer bem. Mas nem sempre este é o caso.” Sky sobre o título do segundo disco para a publicação Beat Magazine, em 2015.

Sky também é atriz e modelo, o que tem ajudado a artista durante todo o processo criativo, tendo aproveitado a liberdade de direção artística e criativa para as fotos de sua edição como capa da Playboy para apresentar o conceito do disco. Mas enquanto o SF2 não vem, podemos conferir sua participação no revival de Twin Peaks e ouvir a canção inedita para a trilha sonora do filme “Baby Driver“, no Brasil distribuído como “Em Ritmo de Fuga”, do qual ela também faz parte do elenco com nomes como Ansel Elgort (A Culpa é das Estrelas, Divergente) e Lily James (Cinderela, Orgulho e Preconceito Zumbis).

COMPARTILHE ESSA POSTAGEM:

07/07/2017
por Douglas Vasquez
Comente!

O CANTO MAIS ESCURO DA FLORESTA, 2017 | GALERA RECORD | 294 PÁGINAS | ISBN 8501108766 | 🛒

Foi uma surpresa quando recebi a carta dos Correios solicitando a retirada de um pacote misterioso em uma de suas agências. Afinal, por maiores e raras vezes pesados os pacotes com livros que já recebi das editoras parceiras, nenhum deles foi necessário ter que ir buscar. O que será que me esperava então?

Com a caixa embalada em papel pardo, não conseguia conter a curiosidade de entender o que havia ali dentro. O pacote era claramente da Editora Record, pois estava estampado na embalagem. Ainda no carro, com a caixa no colo, não contive a animação e rasguei o embrulho. Quando abri, o perfume doce foi a primeira coisa que notei e logo em seguida, as flores secas preenchendo a caixa.

“O canto mais escuro da floresta” é quase como um conto de fadas moderno. Holly Black (que é uma das autoras da famosa série infanto-juvenil ‘As Crônicas de Spiderwick’, que ganhou os cinemas em 2008), se aventura em um livro fantástico com pitadas de romance moderno. De imediato, fiquei ansioso para começar a leitura, pois nunca havia lido nenhum outro livro da autora.

Fairfold, situada nos Estados Unidos, é uma cidade diferente das outras, com uma floresta encantada, onde moram fadas e outros seres mitológicos. Por séculos os residentes da cidade sabem que não devem confiar nas criaturas que vivem cercando a cidade, a mágica é uma coisa perigosa para se lidar. No entanto, há um garoto pálido de chifres e cabelos cacheados que dorme dentro de um caixão de vidro. Por gerações ele esteve ali e ninguém nunca soube o porquê, o mistério que gira em torno do “Garoto de Chifres” é enorme, mas sua beleza indecifrável não torna muito difícil de imaginar que muitas garotas (e garotos) tenham se apaixonado por ele ao longo das décadas.

“Você e sua irmã são muito amáveis um com o outro e para demonstrar isso, vocês dão um ao outro belos buquês de mentiras.”

Hazel e Ben são irmãos, nascidos e criados em Fairfold por dois pais que não entendiam muito bem o que é ter filhos e por vezes, os dois tinham que se virar sozinhos para sobreviverem. O garoto dormindo na floresta se tornou um amigo confidente, deitado em seu caixão de vidro inquebrável, Ben e Hazel encontram nele a segurança para dividir seus pensamentos e problemas.

Até que um dia o caixão é quebrado e o garoto de chifres não se encontra mais dormindo ali.

A história contada por Holly Black é mais do que um conto de fadas moderno, é uma história sobre dois irmãos que eram inseparáveis na infância, mas guardam muitos segredos obscuros na adolescência. Ela constrói o enredo buscando memórias da infância aventureira dois dois intercalando com momentos no presente que preenchem as lacunas e complementam as personalidades dos dois a todo o momento. Essa escrita gradual me fez sentir mais próximo dos dois, ao me fazer conhecer o seu passado ao “testemunhar” as atitudes tomadas no presente, me tornou mais próximo, assim como quando conhecemos uma pessoa nova.

“Ela sabia que ele entenderia. Irmãos tem sua própria linguagem, seus próprios códigos. Ela estava feliz por poder compartilhar a estranha, ridícula impossibilidade daquilo com a única pessoa que conhecia as mesmas histórias, com a pessoa que as havia criado, para começo de conversa.”

O início do livro é um pouco lento, sem deixar se revelar muito um livro de fantasia, o que me deixou um tanto desanimado a continuar. Quando somos apresentados à mitologia do garoto de chifres e ao poder que ele tem sobre todo o enredo, a minha curiosidade estalou e acabei lendo o livro o mais rápido que pude, mas com aquela angústia na boca do estômago por saber que aquele era um livro único, não há sequências.

O que mais gostei na história, no entanto, não foi a reconstrução da relação entre os irmãos, mas o romance inesperado entre Ben e o gaoroto de chifres e todo o desenrolar de um relacionamento que há muito estava predestinado. Ben o via como um príncipe que o salvaria da maldição que lhe fora dada como uma benção quando era bebê e durante anos confidenciava a ele, em seu caixão de vidro, todos os dilemas da vida de um garoto que estava entendendo a sua sexualidade. Por mais que Hazel também seja apaixonada pelo garoto, é por Ben que ele nutre o sentimento – ele sempre esteve ouvindo tudo e ansiando por mais, incapaz de dizer uma palavra preso em sua maldição.

“Eu amo você como nos livros de histórias. Eu o amo como nas canções de amor. Eu o amo como um raio. Eu o amei desde o terceiro mês em que você veio falar comigo. Eu amei que você me fazia querer rir. Eu amei a maneira que você era doce e de como você fazia pausas ao falar, esperando que eu o respondesse. Eu o amo e não estou zoando ninguém quando beijo você, ninguém mesmo.”

A perspectiva interessante deste romance é que ele tem duas heroínas, que na verdade são uma só. Hazel sempre foi a corajosa, quando criança lutara contra as criaturas mágicas de Fairfold e fizera de tudo para proteger sua família, em especial o irmão e neste ponto da narrativa, quando tudo parece fazer sentido, nada realmente faz. É neste ponto, quando descobrimos o segredo mais profundo de Hazel que a história realmente começa e estamos falando de quase metade do livro – e não digo isso como uma crítica negativa.

Black criou um universo mitológico muito bem detalhado que nos faz querer mais livros, mais histórias e mais tempo com os personagens, que são o ponto alto do livro. Os diversos romances e histórias paralelas à narrativa principal deixam os personagens mais complexos e ricos, é possível sentir as emoções e os sentimentos guardados. Aliás, sentimentos guardados e coisas não ditas são temas muito presentes no livro, que explora conexões familiares (não apenas entre Ben e Hazel e seus pais), aceitação, auto-descoberta e tudo isso em livro de apenas 300 páginas.

Não há resenha no mundo que fará jus à “O canto mais escuro da floresta”. A capa da edição americana mostra a silhueta de um garoto formada por folhas e flores, enquanto a brasileira feita pela Galera Record não revela muita coisa e a diagramação das páginas são praticamente o padrão da editora. Durante toda a aparição do garoto de chifres no livro, as características físicas descritas pela autora me fizeram associá-lo ao Harry Styles (don’t blame me) e agora não consigo desfazer isso na minha cabeça.

Ben, Hazel e todos os outros personagens tem dilemas e personalidades muito relacionáveis. As sublinhas obscuras escritas por Holly Black se escondem por baixo de uma narrativa simples e te colocam a pensar em temas que afetam a realidade atual.

“Para Ben, o amor era uma chama na qual ele queria renascer. Ele queria ser refeito por ela.”

COMPARTILHE ESSA POSTAGEM: