21/09/2018
por Douglas Vasquez
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Depois de reencontrar a fórmula para o sucesso na televisão moderna com a premiada Big Little Lies, a HBO volta a surpreender com a adaptação de Objetos Cortantes, do livro de mesmo nome da escritora americana Gillian Flynn (conhecida por “Garota Exemplar”). A mini série é composta por oito episódios que acompanham os passos de Camille Preaker, uma jornalista com camadas tão bem escritas que nem ela mesma é capaz de olhar para dentro de si e encontrar as respostas para seus traumas, que estiveram embaixo de seu nariz o tempo todo. Uma personagem tão complexa que apenas Amy Adams, e a jovem Sophia Lillis, prodígio dessa nova geração de atores mirins, seriam capazes de entregá-la da forma devida às telas do canal. Se você é leitor assíduo deste blog, nem preciso avisar que esta crítica contém spoilers, certo?

Camille é enviada para a sua cidade natal por seu Editor Chefe (e de certa forma também mentor) para escrever uma série de matérias sobre um recente caso de assassinato na pacata Wind Gap, Missouri. Enquanto está lá, outro crime acontece e as coisas se desenrolam de maneira com que o espectador suspeite de todo mundo, menos do real culpado pelos crimes, revelado apenas nos segundos finais do último episódio. Seu faro jornalístico acaba funcionando de forma terapêutica ao confrontar os pontos e as pessoas que a fizeram decidir abandonar a cidade.

A atmosfera da trama faz com que Wind Gap se torne também um dos personagens e por muitas vezes, seus detalhes em tela são tão nítidos, que você se questiona se no fim das contas ela é o centro de todos os problemas que acontecem há décadas. Em um dos episódios, somos apresentados da forma bizarra que apenas uma cidade interiorana dos Estados Unidos consegue ser, à origem do local — forjada pelo “sacrifício” de sua fundadora em ser estuprada por soldados ao se recusar expor o paradeiro de seu marido. Sim, eles celebram isso com orgulho.

Amma (ao fundo), Adora e Camille no episódio 5, “Closer”.

QUEM É VOCÊ QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO?

De certa forma, a série reflete a certeza de que nunca conhecemos ninguém de verdade. Não apenas pela personagem principal se dar conta de que seus problemas vão muito além do trauma que sofreu pela perda de sua irmã mais nova, quando estava entrando na adolescência, mas também quando as camadas dos personagens secundários (chama-los assim é quase uma ofensa, na verdade) são retiradas, uma a uma, de forma fragmentada para quem está assistindo conectar todos os pontos no capítulo final.

Também abordando a temática sexista, Objetos Cortantes aponta com maestria a desconstrução de papéis sociais por parte das três personagens centrais: Camille, Amma, a meia-irmã adolescente e Adora, mãe das duas.

O nome da série faz referência à Camille, que lida com seus demônios descontando o que pensa sobre si em seu próprio corpo, se auto-mutilando. Ela reage ao sexismo projetando em seu comportamento diversos estereótipos que são, muitas vezes, considerados masculinos — ela é alcoólatra e vai à bares muito segura de si. Em vários pontos do enredo, ela faz questão de pagar pela bebida dos homens que a acompanham, ela está no controle. Camille está sempre vestindo preto e roupas atípicas para Wind Gap, que reflete nas mulheres da cidade muita feminilidade e sofisticação, rejeitando todo o estilo de vida imposto por sua matriarca.

Ela faz o que quer simplesmente porque ela pode e isso deixa os personagens masculinos da série loucos (às vezes de amores) por ela.

Adora e Amma lidam com o sexismo de formas similares, em diferentes estágios da vida. Adora cresceu ouvindo que a sua família descende diretamente da fundadora da cidade e, por isso, se considera em um nível acima dos outros moradores (temos essa certeza justamente no episódio em que celebram a cidade, quando ela faz questão de organizar o evento anual em seu quintal, mas proibindo qualquer um de passar da varanda para dentro de sua casa sem a sua autorização). Das três personagens, ela é a que engaja com o tema perpetuando o rótulo da feminilidade, ela faz de tudo para manter as aparências e preservar a sua reputação, mesmo que isso signifique humilhar a sua própria filha como forma de descreditá-la por sua competência em desempenhar o seu trabalho.

Amma, por sua vez, se esconde na mesma camada maquinada por sua mãe e utiliza de sua feminilidade como arma para conseguir o que quer. Em referência à narrativa da série, ela permite que as pessoas a manipulem como forma de se manter no controle. Ela permite, logo, ela é quem manda e isso fica muito claro quando afirmado diversas vezes pela personagem quando fala com sua meia-irmã. Eliza Scanlen é, inclusive, um dos destaques da temporada.

Meio-irmãs: Amma e Camille Preaker, em “Vanish”.

NARRATIVAS CORTANTES

Objetos Cortantes explora as relações e executa um roteiro quase que impecável. A construção do sentimento entre duas meio-irmãs que nuca tiveram nenhum tipo de relacionamento e se apegam uma à outra. O sentimento mãe e filha em diferentes níveis: o unilateral entre Adora e Camille; o mutuo entre Adorna e Amma; e até mesmo entre os outros personagens, entre John e sua irmã falecida. O trabalho consciente da direção transparece entre os episódios quando intercala com maestria os acontecimentos do presente com os ganchos para os flashbacks do passado de Camille. São pontos chave extremamente importantes para remontarmos a personagem.

A forma com que os roteiristas escreveram sobre transtornos psicológicos e o distúrbio de Camille, com a auto-mutilação, ensina para as séries mais jovens que abordam o mesmo tema a como falar sobre isso sem tornar o show em um tutorial sem culpa. Ele te deixa pistas por toda a série para que você descubra quem é o assassino e entenda suas motivações de forma sutil e minuciosa. Ao final da última cena pós créditos, pois a série tem duas, a sensação que fica é a de choque e horror total. Estava tudo ali, era só olhar na direção certa e até isso a trama tenta dizer ao telespectador através da boca de alguns dos personagens.

São pequenas cenas e falas que se conectam a uma motivação maior no fim das contas, mas que ainda assim, é muito simples. No primeiro episódio, Camille, como disse no início, é enviada de volta para casa também com o propósito de provocar uma catarse na vida da personagem. De forma a ajudá-la a encerrar um capítulo de sua vida que já dura tempo demais. E é olhando para dentro de casa, literalmente, que o problema se resolve.

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