22/04/2017
por Douglas Vasquez
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O PERFUME DA FOLHA DE CHÁ, 2017 | EDITORA PARALELA | 432 PÁGINAS | ISBN 9788584390465 | 🛒

“O Perfume da Folha de Chá” foi uma grande surpresa pra mim. 

O livro é um romance histórico publicado pela Editora Paralela e estampa na capa que é o best-seller número 1 na Inglaterra, o que se justifica por contar a história de Gwendolyn, uma jovem inglesa que se casa com Laurence Hooper, um bem sucedido plantador de chá, em meados dos anos 1920 e muda-se então para o Ceilão e passa a viver com ele em uma de suas fazendas.

“Uma mulher diante da escolha mais terrível de sua vida.”

Eu não sou o maior fã de livros históricos, um fato que foi recebido com várias expressões de surpresa dos meus amigos que perguntavam qual era a leitura da vez. A maior surpresa, no entanto, foi a minha, que me peguei pensando na história durante o dia todo, cada vez mais intrigado pelo que aconteceria na até então superficial vida de uma dona de casa dos anos 20. Para começar, o romance escrito por Dinah Jefferies é muito sombrio. Rapidamente após toda a adaptação de Gwen à sua nova vida no Ceilão — hoje o país é conhecido como Sri Lanka —  longe de toda a agitação e modernidade que seu cotidiano carregava em Londres, somos atraídos por diversos segredos que foram escondidos por anos pelos empregados e pelo próprio Laurence em camadas impenetráveis por pessoas como a Gwen, uma recém chegada e cheia de energia para gastar.

“Ela respirou fundo, como se assim fosse capaz de absorver cada partícula da beleza que tinha diante de si: as flores perfumadas, o deslumbramento da vista, o verde luminoso dos morros com a plantação, o som dos pássaros. Era de deixar o queixo caído.”

Gwen não é a primeira esposa de Laurence, que se viu viúvo após uma série de fatores profundos que culminaram em um “suicídio” que também levou o seu primeiro filho. Tendo que aprender a lidar com o fato de seu marido ainda não ter superado o luto, apesar de ser um homem muito à frente do seu tempo, ele quase não dá brechas para que ela possa ajudá-lo, fazendo com que Gwen procure respostas entre os empregados ou com a cunhada que não tem um pingo de caráter. Até este ponto do livro a história se arrasta em um tom conflitante que beira o tedioso e me fez quase ter certeza que este seria mais um livro histórico que eu simplesmente deveria deixar pra lá.

Após um ano aprendendo na marra como ser uma Senhora Hooper, a comandar uma casa cheia de empregados e entender qual o é o seu lugar no Ceilão, ela enfrenta vários estereótipos machistas e desafia o status quo tentando melhorar a harmonia do que parece ser algo forçado. Mas nessa altura, Gwen também começa a colecionar os próprios segredos e depois de uma noite conturbada de bebedeira, fica grávida do marido e pouco depois dá a luz à gêmeos. Eu senti o desespero da londrina ao perceber que saíram de si dois filhos, um de cada cor, sendo ela e seu marido brancos.

O propósito da história fica muito claro a partir deste momento, pois é ali que se define a crítica sobre o racismo e o politicamente correto daquela época. Como seria possível Gwen, uma esposa devota ao seu marido dar a luz à uma criança de cor? Pensariam que ela havia traído o marido com outro homem? Veja bem, naquele tempo a genética era algo ainda a ser questionado e Gwen muito pouco sabia que era possível sim sua filha ser de tons mais escuros se a genética corre em algum ponto da árvore genealógica dos Hoopers. No meio do pânico de ter sua lealdade questionada e ser jogada para fora de sua própria casa, ela toma a decisão que jamais a deixaria em paz: pede para a devota ama levar sua filha embora e dá-la para uma mulher da aldeia. Não antes de batizá-la com um nome e guardar em sua mente o rosto angelical da bebê.

“Gwen sabia muito bem que a culpa era capaz de consumir uma pessoa por dentro, e que era uma presença persistente, invisível a princípio, mas que ia crescendo até ganhar vida própria.”

Durante os anos seguintes, Gwen e Laurence criaram o filho com todo o luxo que podiam entregar à ele e saber que a única filha, que deveria estar ao lado deles também desfrutando de toda a fartura estava vivendo na pobreza, tendo que enfrentar uma vida muito mais difícil entre os trabalhadores na aldeia. É uma culpa que se torna tão grande e profunda que muda Gwen e a torna mais madura. A história se torna sombria e angustiante cada vez que a trama se desenvolve e tudo chega perto de ser revelado.

Acompanhamos Gwen aprender a viver com uma ferida exposta por quase uma década, cercada por pessoas que não confia. A mulher que antes era cheia de vida e curiosa por tudo passa a ser cautelosa e com medo do que poderia acontecer a todo momento. Todos os personagens do livro se tornam complexos, até mesmo a cunhada, Verity, que não dá um segundo de paz à Gwen e faz de tudo para tornar a sua vida no Ceilão mais complicada — descobrimos que ela nunca lidou muito bem com a perda dos pais e a rejeição que sofreu do único homem que amou, o peso de estar “ficando para titia” cai sobre ela e a “obriga” fazer coisas terríveis. Quase todas as intrigas tem o dedo dela!

“Ninguém nunca dissera que ser mãe significava conviver com um amor tão indescritível que a deixaria sem fôlego, e com um medo tão terrível que abalaria até sua alma. E ninguém nunca avisara sobre a proximidade desses dois sentimentos. No fundo da mente de Gwen, um pensamento assustador tomou forma. Se ela tivesse a coragem de dar um passo em direção à beirada, tudo acabaria.”

Quando a mãe adotiva de sua filha falece e a garotinha, que agora beira os sete anos, fica sem ter para onde ir, Gwen é encurralada por seus segredos e leva a filha para viver em sua casa como se fosse uma parente distante de sua ama (que é uma pessoa muito incrível). O seu filho cria um vínculo enorme com a irmã desconhecida e, após um tempo relutando com a nova hóspede, Laurance também — no fundo ele sabe que ela é sua filha e entende o apego de Gwen à garotinha. Eu fico com o coração apertado só de lembrar ao escrever essa resenha que a partir daqui, o livro fica cada vez mais profundo e ganha um tom melancólico quando a menina é diagnosticada com atrofia muscular, naquela idade e época, sem cura.

O desfecho do livro é triste em níveis que eu não poderia imaginar, mesmo depois de tantos ganchos e histórias paralelas que acompanhamos na quase uma década escrita por Jefferies. Gwen e Laurence despem-se um para o outro e revelam todos os segredos que os afligiram pro anos em uma cena profunda e delicada que me fizeram derramar algumas lágrimas (que não faltaram nesse livro). O que eu não dava nada se tornou uma das minhas leituras mais preciosas e definitivamente um daqueles livros que marcaram a minha vida e me colocaram para pensar nos privilégios que tenho e nas coisas que por mais banais que sejam, ainda temos que lutar.

É sem dúvidas uma leitura que eu recomendaria para todos mundo.

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