07/07/2017
por Douglas Vasquez
comentários

O CANTO MAIS ESCURO DA FLORESTA, 2017 | GALERA RECORD | 294 PÁGINAS | ISBN 8501108766 | 🛒

Foi uma surpresa quando recebi a carta dos Correios solicitando a retirada de um pacote misterioso em uma de suas agências. Afinal, por maiores e raras vezes pesados os pacotes com livros que já recebi das editoras parceiras, nenhum deles foi necessário ter que ir buscar. O que será que me esperava então?

Com a caixa embalada em papel pardo, não conseguia conter a curiosidade de entender o que havia ali dentro. O pacote era claramente da Editora Record, pois estava estampado na embalagem. Ainda no carro, com a caixa no colo, não contive a animação e rasguei o embrulho. Quando abri, o perfume doce foi a primeira coisa que notei e logo em seguida, as flores secas preenchendo a caixa.

“O canto mais escuro da floresta” é quase como um conto de fadas moderno. Holly Black (que é uma das autoras da famosa série infanto-juvenil ‘As Crônicas de Spiderwick’, que ganhou os cinemas em 2008), se aventura em um livro fantástico com pitadas de romance moderno. De imediato, fiquei ansioso para começar a leitura, pois nunca havia lido nenhum outro livro da autora.

Fairfold, situada nos Estados Unidos, é uma cidade diferente das outras, com uma floresta encantada, onde moram fadas e outros seres mitológicos. Por séculos os residentes da cidade sabem que não devem confiar nas criaturas que vivem cercando a cidade, a mágica é uma coisa perigosa para se lidar. No entanto, há um garoto pálido de chifres e cabelos cacheados que dorme dentro de um caixão de vidro. Por gerações ele esteve ali e ninguém nunca soube o porquê, o mistério que gira em torno do “Garoto de Chifres” é enorme, mas sua beleza indecifrável não torna muito difícil de imaginar que muitas garotas (e garotos) tenham se apaixonado por ele ao longo das décadas.

“Você e sua irmã são muito amáveis um com o outro e para demonstrar isso, vocês dão um ao outro belos buquês de mentiras.”

Hazel e Ben são irmãos, nascidos e criados em Fairfold por dois pais que não entendiam muito bem o que é ter filhos e por vezes, os dois tinham que se virar sozinhos para sobreviverem. O garoto dormindo na floresta se tornou um amigo confidente, deitado em seu caixão de vidro inquebrável, Ben e Hazel encontram nele a segurança para dividir seus pensamentos e problemas.

Até que um dia o caixão é quebrado e o garoto de chifres não se encontra mais dormindo ali.

A história contada por Holly Black é mais do que um conto de fadas moderno, é uma história sobre dois irmãos que eram inseparáveis na infância, mas guardam muitos segredos obscuros na adolescência. Ela constrói o enredo buscando memórias da infância aventureira dois dois intercalando com momentos no presente que preenchem as lacunas e complementam as personalidades dos dois a todo o momento. Essa escrita gradual me fez sentir mais próximo dos dois, ao me fazer conhecer o seu passado ao “testemunhar” as atitudes tomadas no presente, me tornou mais próximo, assim como quando conhecemos uma pessoa nova.

“Ela sabia que ele entenderia. Irmãos tem sua própria linguagem, seus próprios códigos. Ela estava feliz por poder compartilhar a estranha, ridícula impossibilidade daquilo com a única pessoa que conhecia as mesmas histórias, com a pessoa que as havia criado, para começo de conversa.”

O início do livro é um pouco lento, sem deixar se revelar muito um livro de fantasia, o que me deixou um tanto desanimado a continuar. Quando somos apresentados à mitologia do garoto de chifres e ao poder que ele tem sobre todo o enredo, a minha curiosidade estalou e acabei lendo o livro o mais rápido que pude, mas com aquela angústia na boca do estômago por saber que aquele era um livro único, não há sequências.

O que mais gostei na história, no entanto, não foi a reconstrução da relação entre os irmãos, mas o romance inesperado entre Ben e o gaoroto de chifres e todo o desenrolar de um relacionamento que há muito estava predestinado. Ben o via como um príncipe que o salvaria da maldição que lhe fora dada como uma benção quando era bebê e durante anos confidenciava a ele, em seu caixão de vidro, todos os dilemas da vida de um garoto que estava entendendo a sua sexualidade. Por mais que Hazel também seja apaixonada pelo garoto, é por Ben que ele nutre o sentimento – ele sempre esteve ouvindo tudo e ansiando por mais, incapaz de dizer uma palavra preso em sua maldição.

“Eu amo você como nos livros de histórias. Eu o amo como nas canções de amor. Eu o amo como um raio. Eu o amei desde o terceiro mês em que você veio falar comigo. Eu amei que você me fazia querer rir. Eu amei a maneira que você era doce e de como você fazia pausas ao falar, esperando que eu o respondesse. Eu o amo e não estou zoando ninguém quando beijo você, ninguém mesmo.”

A perspectiva interessante deste romance é que ele tem duas heroínas, que na verdade são uma só. Hazel sempre foi a corajosa, quando criança lutara contra as criaturas mágicas de Fairfold e fizera de tudo para proteger sua família, em especial o irmão e neste ponto da narrativa, quando tudo parece fazer sentido, nada realmente faz. É neste ponto, quando descobrimos o segredo mais profundo de Hazel que a história realmente começa e estamos falando de quase metade do livro – e não digo isso como uma crítica negativa.

Black criou um universo mitológico muito bem detalhado que nos faz querer mais livros, mais histórias e mais tempo com os personagens, que são o ponto alto do livro. Os diversos romances e histórias paralelas à narrativa principal deixam os personagens mais complexos e ricos, é possível sentir as emoções e os sentimentos guardados. Aliás, sentimentos guardados e coisas não ditas são temas muito presentes no livro, que explora conexões familiares (não apenas entre Ben e Hazel e seus pais), aceitação, auto-descoberta e tudo isso em livro de apenas 300 páginas.

Não há resenha no mundo que fará jus à “O canto mais escuro da floresta”. A capa da edição americana mostra a silhueta de um garoto formada por folhas e flores, enquanto a brasileira feita pela Galera Record não revela muita coisa e a diagramação das páginas são praticamente o padrão da editora. Durante toda a aparição do garoto de chifres no livro, as características físicas descritas pela autora me fizeram associá-lo ao Harry Styles (don’t blame me) e agora não consigo desfazer isso na minha cabeça.

Ben, Hazel e todos os outros personagens tem dilemas e personalidades muito relacionáveis. As sublinhas obscuras escritas por Holly Black se escondem por baixo de uma narrativa simples e te colocam a pensar em temas que afetam a realidade atual.

“Para Ben, o amor era uma chama na qual ele queria renascer. Ele queria ser refeito por ela.”

GOSTOU? COMPARTILHE O POST:
Enaltecendo a cultura pop desde 2014

Layout por Young Design | Programação por iDVisual Design
BOP TO THE TOP!