29/06/2016
por Douglas Vasquez
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Ariana Grande tem 23 anos de idade e 8 de carreira. Apesar de ser um prodígio quando criança, estando na Broadway aos 13 anos de idade, ela só foi conhecida mundialmente com a sua estreia na televisão, no seriado da Nickelodeon “Victorious“, protagonizado por Victoria Justice. Seu papel na série como Cat Valentine, uma garota ruiva, inocente e engraçada a garantiu uma série protagonizada por ela anos mais tarde, após três temporadas, quando o show foi cancelado em 2013.

Neste mesmo ano, Ariana lançou seu debut álbum, “Yours Truly“, tendo influências de seus grandes ícones do R&B e Jazz, sendo muito bem recebido pela crítica especializada e pelo seu público; mas angana-se quem acredita que este foi o seu primeiro passo na música. Em 2011, quando ainda estava desenvolvendo sua personagem na série “Victorious”, Ariana lançou o seu primeiro single chamado “Put Your Hearts Up“, que decidiu abandonar por não representar em nada a sua personalidade ou musicalidade no momento, sendo algo completamente comercializado como algo que a sua personagem cantaria.

Desde então, Ariana vem exercendo sobre si própria, em passos lentos, o controle sobre a sua carreira. Mostrando ao que veio com o sucesso mundial que o primeiro single do disco gerou, alcançando a décima posição na Billboard Hot 100, o segundo álbum tratou de abandonar os lacinhos e as cores fofinhas que ainda a conectavam à sua personagem do canal infantil que a lançou.

Em “My Everything“, Ariana explora áreas da música pop que em seu debut não havia pisado antes. O sucesso instantâneo de “Problem” em parceria com a rapper Iggy Azalea e em sequência a eletrônica “Break Free” com o DJ e produtor musical, Zedd a garantiu o status de estrela pop desta década e a garantiu maior liberdade para se expressar através de seus trabalhos. Nesta nova fase, Ariana adotou as cores monocromáticas e a estética sóbria combinadas com botas altas acima dos joelhos. Os vestidinhos deram lugar aos maiôs, croppeds e sias curtas. O terceiro single do álbum, “Love Me Harder” em parceria com The Weeknd é a sua primeira canção explicitamente sobre sexo, onde Ariana faz questão de tratar o assunto com maestria.

Apesar de muito criticada nas redes sociais ao revelar o conceito do terceiro álbum, “Dangerous Woman“, Ariana Grande não deixou-se abalar pelos comentários e seguiu em frente ao empoderar-se e mostrar que ela também pode ser uma mulher perigosa, sensual e dona de si mesma. E é aí onde está o grande acerto do disco.

Desde o início Ariana tratou de se distanciar de sua personagem inocente e infantil e permitiu-se crescer com autoridade em um meio que insiste em objetificar a mulher e a prender à apenas ao papel que lhe foi designado. Grande não deixou-se ser classificada pela sociedade por causa de seu tamanho (ela tem 1,53m de altura) e feições doces, revertendo o papel sexual a seu favor e utilizando desta persona para dar poder à si mesma. Apoiando causas sociais e se impondo contra a misoginia que lhe era imposta ao ser tratada com superficialidade em entrevistas e tapetes vermelhos.

Embora o visual do álbum seja empoderador, e o conjunto da roupa de látex com a máscara seja intimidador, Ariana não deixa sua vulnerabilidade de lado e é nela que encontra-se toda a base musical desta nova fase da cantora. “Moonlight” é a faixa que abre o disco e cantada de forma celestial, Ariana abre seu coração e entrega-se apaixonada, contando as coisas que o “cara” faz que ela ama.

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Em sequência, na faixa título do álbum Ariana solta a sua persona para o mundo ao iniciar declarando que “não precisa de permissão, pois já tomou sua decisão de testar os limites” e explora as barreiras que a sociedade não a permitiria, entregando-se ao seu instinto. Esta mesma atitude é notada em outras músicas do disco, sendo elas “Into You”, onde projeta seu desejo e sentimento em seu interesse romântico afirmando que está muito a fim dele e que tomará uma atitude caso ele demore demais; “Everyday“; “Bad Decisions” e “Touch It“, sendo a última mais uma confissão do quanto ela está disposta a explorar seus limites por amor, até mesmo tomar as rédeas da relação por ele — “Because everytime I see you I don’t wanna behave / I’m tired of being patient so let’s pick up the pace / Take me all the way, ain’t nobody gonna touch it“.

O conceito do álbum funcionaria muito melhor se não encontrássemos tantas parcerias desnecessárias ao longo de sua tracklist. “Side to Side” com Nicki Minaj e “Let Me Love You” com Lil Wayne destoam tanto da proposta pop que Ariana busca com “Dangerous Woman” que poderiam ser facilmente descartadas e não fariam falta alguma na execução do mesmo. “Be Alright” e “Greedy” são duas músicas despretensiosas em up-tempo, que usufruem de batidas que referenciam os anos 80.

A inteligente “Knew Better / Forever Boy” mistura o R&B com a música pop, ao trazer um combo em duas partes onde Ariana canta sobre a intensidade como ama versus o dilema de entregar-se ao amor e render-se à mesma intensidade que canta na anterior. A segunda inclusive, poderia facilmente sustentar-se sozinha como single e encontrar-se nas pistas de dança de casas noturnas. Com pouquíssimas referências às suas raízes Soul, sendo a mais evidente na música “I Don’t Care“, Ariana concentra sua energia em outro extremo, além do seu boy, para onde tudo começou: ela mesma. Cantando com os pés no chão sobre não deixar-se influenciar pela mídia ou pelo que outras pessoas dizem a respeito dela.

Encerrando o disco brilhantemente com “Thinking ‘Bout You“, Ariana fecha o ciclo da mesma maneira que começou em “Moonlight”, que é, em tom celestial, confessando a intensidade que seus sentimentos podem tomar sem medo revelar ao mundo que isso o que a torna tão poderosa (e perigosa). A balada é incrivelmente acertada, com os vocais (como sempre) na medida certa, elevando o tom da canção quando necessário — “Oh, I don’t have you here with me /But at least I have the memory / I try to make it through the night / But I can’t control my mind.

A identidade do cara sobre o qual Ariana Grande está cantando não é importante. O que torna o disco interessante é a maneira em que ela acredita que seus sentimentos não a tornam mais frágil e os utiliza como gatilho para impulsionar a sua sexualidade e poder como mulher; recusando-se a personificar o ser frágil e submisso que a sociedade e a mídia pregam nas mulheres e principalmente nas cantoras pop, que se vêem expostas diariamente e são obrigadas por suas gravadoras a utilizarem do sex appel apenas para venderem suas músicas. É uma forma de utilizar a arma que é apontada para ela em benefício próprio revertendo a situação à um ponto que quando for tomado um tempo para ser analisado, após toda a chacota com o seu nome, ela já estará no controle; ainda sendo ela mesma.

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