12/09/2017
por Douglas Vasquez
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À PRIMEIRA VISTA, 2017 | GALERA RECORD | 294 PÁGINAS | ISBN 9788501110749 | ⭐⭐⭐⭐


Já declarei minha paixão por livros do David Levithan por aqui antes, inclusive, já existem outras resenhas de livros escritos por ele no blog. David é um autor que costuma escrever livros Young Adult (YA) sobre adolescentes gays e o mundo em que vivem e neste, em parceria com a autora Nina LaCour – meu primeiro contato com ela -, vão além do óbvio, e a narrativa principal não aborda um romance, e sim uma amizade.

“À primeira vista” (“You Know Me Well”, original em inglês), conta a história de Mark e Kate, dois jovens que vivem em São Francisco e estão perdidamente apaixonados e presos em duas situações em que isso lhes causa medo. A história começa em um sábado e os capítulos se alternam entre os dois personagens, no início da Semana do Orgulho LGBT de São Francisco, a capital gay. Apesar do romance, o livro narra diversas nuances da amizade: a inesperada conexão entre Mark e Kate, que nunca haviam se falado antes; entre Mark e seu melhor amigo Ryan, pelo qual ele é apaixonado e entre Kate e sua melhor amiga, uma amizade extremamente frágil e conturbada. Os dois vivem como sombras de dois amigos que são, na maioria das vezes, o centro das atenções, guarde isso.

A narrativa da história é leve, característica forte entre os livros de David, que abordam com muita naturalidade o cotidiano da comunidade gay e apesar de irreal (afinal, tudo é permitido na literatura e isso é bom), me vi preso no livro e não larguei um minuto, terminando a leitura no mesmo dia. Mark está frustrado porque mesmo depois de várias saliências com Ryan, seu melhor amigo não vai além e formaliza um relacionamento a mais, isso faz com que ele tome medidas desesperadas para conquistar sua atenção, em raros atos de coragem, como subir no balcão de um bar para dançar apenas de cuecas – situação onde se depara com Kate, “amizade à primeira vista”.

Não sei como o processo de escrita em conjunto funciona, mas não senti grandes diferenças entre os capítulos escritos por Nina, autora do livro “Estamos Bem”, que tem apenas uma das capas mais lindas que eu já vi (Plataforma 21, eu quero!). Por estar inserido na comunidade, visualizei com facilidade as situações dos relacionamentos vividas pelos personagens, que não ganham muita profundidade além dos dois principais e Ryan, que por trás da persona destemida e animada, batalha com seus próprios medos e a dificuldade em se assumir dentro de casa.

“No contexto do nosso relacionamento, isso faz todo sentido: somos só amigos, exceto pelos momentos em que, ops, somos mais que só amigos. Não falamos sobre esses momentos, e eu acho que Ryan acredita que, se não falarmos sobre eles, significa que não acontecem.”

Há poucos momentos em que o livro beirou a linha do inacreditável. Kate, já está no último ano no ensino médio e foi aceita em uma universidade renomada para estudar artes plásticas (ela é pintora), mas está dividida entre ir e tirar um ano para se descobrir. Seu dilema principal é com si mesma e não envolve as ações de outras pessoas, por mais que ela acredite que este seja o problema. Extremamente insegura com suas próprias decisões, Kate viu sua vida moldada pelo que foi dito por sua melhor amiga, possessiva, que a convence de criar altas mentiras para impressionar a garota que está apaixonada, Violet.

Fugindo de todo o caos, Kate e Mark encontram uma solução muito, mas muito fantasiosa: com o contato de um fotógrafo em mãos, conseguem entrar em uma festa bem localizada, entre muitas celebridades que decidem, sem mais nem menos, torná-los instafamous. E no dia seguinte, Kate já é uma das artistas mais disputadas de São Francisco e Mark consegue causar em Ryan o que queria, inveja.

“Estou pronto para me perder, mas não estou pronto para perder você. Estou pronto para me encontrar, mas não estou pronto para que você saiba o que eu irei encontrar.”

Apesar de toda a fantasia, sonho de qualquer millenial, a trama central do livro é interessante e fica muito próxima de coisas que eu passo no dia a dia. Ambos decidem não correr e contar para os melhores amigos toda a aventura da noite anterior e em um ato de desespero, decidem que só contarão a verdade caso eles os perguntem, invertendo a situação.

É um livro jovem adulto muito leve, pensado para ser lido sem muita pretensão e que envolve muitas referências aos dias atuais, a vontade de ser ouvido e a busca pelo romance perfeito, cheio de frases publicáveis nas redes sociais. No fim das contas, Kate e Mark se descobrem em uma amizade forte, que não é pesada para nenhum dos lados, não há a vontade de contar vantagem sobre o outro e existe respeito pelas decisões, apoio e cumplicidade – características parte de uma boa amizade que não conheciam.

A história também deixa a lição de que seus melhores amigos também podem ter outros amigos, que podem se tornar (ou não), novos melhores amigos. Era a resposta para tudo o que eu precisava nos últimos dois anos.

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