04/09/2017
por Douglas Vasquez
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A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER, 2017 | CIA DAS LETRAS | ISBN CAPA DURA 978-85-359-2883-9 | ⭐⭐ 


“A insustentável leveza do ser” é um livro considerado clássico. Para a minha vergonha (ou não, sinceramente), eu nunca fui muito atraído pela literatura clássica, nunca fez tanto sentido a obrigatoriedade e também nunca fiz questão de me “forçar” a ler algum livro que se encaixe nessa categoria. Neste ponto, você deve estar imaginando que eu nunca toquei em um livro de Machado de Assis ou então, de Fernando Pessoa e você acertou – nunca os li, talvez um dia.

O livro aclamado de Milan Kundera foi então o meu primeiro livro clássico e confesso, a arte da nova edição em capa dura da Companhia das Letras e a grande questão que cerca o livro muito bem vendida pela sinopse me fizeram escolher o livro entre tantos outros do catálogo da editora. “Será mesmo atroz o peso e bela a leveza?“, questiona o autor já no início do livro, logo na terceira página, e após ler mais 332, continuo me fazendo a mesma pergunta, sem chegar à lugar algum. Talvez a minha estreia na literatura clássica tenha sido o problema, a minha falta de familiaridade com uma obra “cult” e um autor superestimado.

A LEVEZA E O PESO: Há beleza no meio do caos

Colocando meus problemas com o ritmo da história de lado, existem alguns pontos no livro que me agradaram e chamaram a minha atenção. Kundera escreve de forma que não apenas narra a história em terceira pessoa, mas também se insere na narrativa do livro. Durante alguns momentos ele nos conta como surgiram os personagens e explica o porquê dos seus conflitos internos, sempre se baseando no contexto histórico e político da nossa sociedade, na vida real.

“E, mais uma vez, vejo-o como me pareceu no começo deste romance. […] Ele nasceu dessa imagem. Como já disse, os personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta ou sobre a qual nada essencial foi dito. Mas não se costuma dizer que o autor só pode falar de si mesmo?”

“A insustentável leveza do ser” narra a jornada de quatro personagens — Tomas, Tereza, Sabina e Franz —  de forma não-linear, assim somos informados dos acontecimentos da vida de cada um conforme os próprios personagens os descobrem, como por exemplo, a morte de Tomas e Tereza (o casal que teve maior destaque durante a história). Sabina recebe uma carta do filho bastardo de Tomas anos depois de seu affair com o cirurgião, quando já está vivendo em outro continente, enquanto mais pra frente no livro, “voltamos no tempo” para o autor contar a trajetória de ambos a partir do momento em que havia parado antes de passar para a narrativa de Sabina, e assim por diante.

Tendo início por volta de 1968, a história acompanha a vida dos quatro personagens, que vivem na Europa, por até em torno de 20 anos, na década de 1980. Tomas e Tereza iniciam seu relacionamento logo no início do livro e perdura até o final, mesmo com um pequeno rompimento de alguns anos. Tomas é médico cirurgião respeitado, que vai ver sua carreira em risco por problemas políticos ao longo do livro, além de um completo mulherengo que alega que seus relacionamentos sexuais nada interferem em seu relacionamento afetivo e amoroso com Tereza,  que sabe de tudo, confidenciando diversas vezes para ele que seus casinhos a machucam profundamente, mas continuam juntos. Tereza por sua vez, é uma mulher completamente sensível e luta com problemas de auto-confiança e falta de auto-estima pela maneira que fora criada pela mãe e é tratada pelo marido.

“Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na estrada do tempo e que além dessa linha o sofrimento presente deixará de existir. Mas Tereza não via essa linha diante de si. Só podia encontrar consolo olhando para trás.”

Sabina foi brevemente amante de Tomas, mas é seu relacionamento (também extra-conjugal) com Franz que tem o maior impacto na história. Ao contrário de Tereza, Sabina é uma mulher forte, artista plástica, sabe o que quer e vai atrás, mesmo que signifique abandonar tudo o que tem para seguir em frente. Franz é o contrário de Tomas e após seu relacionamento com Sabina se vê completamente fragilizado pela insensibilidade da amante. Mesmo depois de anos, quando Sabina já nem mais pensa nele, Franz continua vivendo sua vida imaginando estar sobre os olhos de aprovação da amante.

É um livro sobre relacionamentos e sobretudo relacionamentos pessoais. Achei difícil me conectar com todos os personagens e me vi lendo o mesmo parágrafo diversas vezes, em busca de sentido. Fiquei incrédulo durante a leitura, que não conseguia me ligar com a história e tornar a leitura agradável. Busquei diversas resenhas e vídeos e fiquei mais incrédulo ainda quando encontrei na maioria delas, opiniões positivas e mil elogios ao livro, afinal, o que há de errado comigo?, pensei. Em uma delas encontrei a possível resposta. A Mia, do blog Wink, é apaixonada pelo livro e recentemente fez um releitura, depois de alguns anos, e confirma tudo o que eu havia dissertado sobre o livro. É um livro de timing, nas palavras dela, “tem histórias que precisam ser lidas na hora certa.” E talvez esta não tenha sido a minha hora.

“Assim, escreveu em seu testamento determinando que seu cadáver seja cremado e as cinzas espalhadas ao vento. […] Ela quer morrer sob o signo da leveza. Será mais leve que o ar. Segundo Parmênides, é a transformação do negativo em positivo.”

Apenas no terço final do romance que me encontrei intrigado com o desfecho da história, me peguei perguntando o que será que irá acontecer com Tereza? Será que irá superar seus medos pessoais de abandono e seguir em frente, com Kariênin, a cadela? De todos os quatro foi ela que me manteve com o livro na bolsa, pronto para ser lido a qualquer momento. Tereza é muito parecida comigo em diversos momentos. Ela utiliza dos livros para escapar de sua realidade e os sentimentos são o maiores pesos de sua vida. Se importasse de alguma coisa dentro da história, diria que Tereza também é canceriana, assim como eu, pois prioriza mais do que tudo o que sente dentro de si e a sua intuição.

Talvez um dia eu dê uma segunda chance ao clássico de Milan Kundera. Eu nunca escrevi uma resenha ruim para um livro e apesar dos pesares, acho que dificilmente esta se encaixa na categoria. No meu tempo com o livro (árduos dois meses) eu encontrei problemas e dificuldade de me conectar com a história, mas talvez seja apenas eu e minha falta de experiência na leitura de clássicos. Fica a seu critério se te interessa entrar na vida dos quatro europeus em busca do equilíbrio entre o peso e a leveza — e se entrar, venha me contar seus pensamentos.

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