14/11/2017
por Douglas Vasquez
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QUINZE DIAS, 2017 | VITOR MARTINS | GLOBO ALT | 208 PÁGINAS | ISBN: 9788525063151 | ⭐⭐⭐⭐⭐


“Quinze Dias” é o romance de estreia do booktuber (e agora autor, né?) brasileiro, Vitor Martins e é o encontro perfeito de dois dos meus autores favoritos, Rainbow Rowell e David Levithan. É claro desde o início como o Vitor se preparou para escrever o romance, não apenas tendo uma grande bagagem de livros YA, o que é bastante perceptível na leitura do livro, o conhecimento em livros jovens adultos, mas também sinto que psicologicamente o autor se libertou de diversos paradigmas e colocou nas páginas da história de Felipe várias de suas inseguranças — algo que contribuiu muito para a riqueza da história e a empatia que sentimos com o protagonista no decorrer dos quinze dias.

“Eu sou gordo. Eu não sou “gordinho” ou “cheinho” ou “fofinho”. Eu sou pesado, ocupo espaço e as pessoas me olham torto na rua.”

O tempo delimitado por Vitor para contar a história é um dos pontos interessantes sobre seu livro. Como sugere o título do romance, todo o arco de Felipe acontece dentro de quinze dias, que o curto período de férias escolares que os personagens tem. A decisão de limitar a história a acontecer dentro dessas duas semanas foi uma das melhores decisões tomadas, pois dessa forma, todo o contexto se justifica e o livro se torna coeso, sem nada a mais e nem um pouco de encheção de linguiça.

Em “Quinze Dias”, publicado pela Globo Alt, Felipe é um garoto gordo que tem problemas de auto-estima e por isso, não tem amigos na escola, um ambiente que se assemelha a tortura para ele. Quando o primeiro dia dessas férias chega, Felipe tem plena convicção de que passará todo o tempo deitado em sua cama colocando os episódios de suas séries em dia, uma pausa de todo o tormento que vive no dia a dia, mas quando menos espera, sua mãe o conta que o filho da vizinha, Caio, ficará hospedado com eles até que seus pais voltem de férias. Acontece que Caio é o crush de Felipe desde sempre e a sua lista de inseguranças vem a tona e seus “dias de paz” parecem cada vez mais distantes.

“- Um dia você aprende a gostar mais de quem você é, e isso vai refletir em como as outras pessoas vão te enxergar. Gente babaca vai existir para sempre, mas a gente aprende a resistir.”

Os pontos altos da história são os personagens cativantes escritos por Vitor. Por conter poucos, Vitor teve a oportunidade de adicionar camadas em cada um deles, aprofundando em suas inseguranças e certezas, é impossível não sentir empatia e se relacionar com algum deles. A narrativa em primeira pessoa é também um enorme ponto positivo. Vitor encontrou a voz perfeita para Felipe, que apesar de tão inseguro, é um garoto super hiper mega engraçado e cheio de referências à cultua pop (um livro que tem um flamingo pink chamado Harry Styles ganha meu coração no mesmo instante), fez com que a leitura do livro fosse dinâmica e com que eu terminasse ele inteiro no mesmo dia.

Vitor soube abordar com clareza e profundidade diversos assuntos importantes presentes na nossa sociedade atual e grande parte do cotidiano de um jovem adolescente como Felipe e sua turma, como bullying, sexualidade e a descoberta de um mundo novo ao se tornar independente. Enquanto se adapta à convivência com Caio, Felipe aprende que é uma pessoa amada por sua família e amigos e quando o romance com Caio se desenvolve, Felipe também aprende que nem sempre a sua verdade é a verdade definitiva — por quê Caio não se apaixonaria por ele, afinal? A questão da sexualidade (Vitor é assumidíssimo para a mãe, enquanto Caio, não) é tocada de forma sutil e Vitor não faz dela uma grande coisa, apenas um detalhe natural na vida dos dois personagens.

“Não se apaixone por uma pessoa que não faça com que você se sinta lindo. Não to falando que o cara precisa te dizer o tempo todo que você é perfeito e maravilhoso. Não é isso. Mas quando você se sente lindo só de estar perto da pessoa, aí, filho, é muito mais fácil. […] Porque você está com uma pessoa que não aponta os seus defeitos. Não faz você se sentir pior. Não repara naquela estria na bunda que nem você tinha reparado até então. Porque essa pessoa enxerga a melhor parte de você. ”

Uma grande sacada de Vitor ao desenvolver o livro, foi a de descentralizar a narrativa de Felipe, mesmo que ele ainda seja o personagem principal da história. Nos momentos em que os dois passam com a mãe de Felipe, assistindo Hairspray ou nos momentos em que aparece a personagem fan favorite, Beca, a narrativa se torna ainda mais divertida e cheia de referências, como se Vitor estivesse se soltando também como autor. Felipe aprende que outras pessoas também sentem o mesmo que ele sente e que também passam por dilemas parecidos, cada mente é um universo gigantesco.

Vitor Martins não poderia ter estreado na literatura brasileira de melhor forma. “Quinze Dias” é caprichado e muito bem elaborado sem soar cansativo, unindo as melhores qualidades dos dois autores que mencionei lá em cima e utilizando-as a seu favor. Que venham mais livros de Vitor por aí, nossa literatura agradece. 

O mundo inteiro é seu. 

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28/09/2017
por Douglas Vasquez
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Dia desses na aula de História da Arte meu professor desatou a contar como a nossa sociedade é cíclica e desde então, isso não saiu da minha cabeça. Em vários momentos do meu cotidiano tenho notado o quanto, de fato, as coisas se repetem. E essas coisas variam bastante: desde a moda, conceitos políticos (estamos vivendo um tempo terrível onde o conservadorismo retorna once again), séries e filmes (tem exemplos mais fortes do que Stranger Things e a onda de remakes e revivals por todo lado?) e até mesmo na música, que é o tema principal desse post.

Em agosto eu escrevi um post sobre o retorno saudosista das fitas VHS e mesmo antes disso eu já tinha notado a estética do vídeo em fita em diversos videoclipes. Então, por que não aproveitar a onda e trazer os meus favoritos pra cá? Pegue os fones de ouvido, sente-se de forma confortável (ou pegue suas polainas pra dançar) e vem comigo!

Bonnie McKee – Thorns

De todas as cantoras atuais, acredito que Bonnie seja a que mais abraça a estética oitentista em suas produções audiovisuais. Em seu primeiro EP, “Bombastic”, a vibe veio com tudo em diferentes variações em todos os videoclipes produzidos para as faixas. A fotografia e a produção artística do clipe de “Easy”, minha música favorita da cantora, é impecável e apesar de não trazer o efeito do VHS, incorpora bastante da transição dos anos 70 e 80 em suas cores e figurino. Em seu novo trabalho, supostamente para o seu segundo disco (só acredito quando estiver com ele nas mãos, viu?), Bonnie resgata em “Thorns” a produção da época, da sonoridade da música à simplicidade das cenas no clipe. Além de tudo isso, Bonnie é um hino de hitmaker, vai ouvir!

Extended Edition: veja “Easy“, “Wasted Youth“, “I Want It All” e “Bombastic“.

MUNA – In My Way

Completamente gravado com o aplicativo Camcorder (que eu amo!), a banda queer que me pegou e me balançou de jeito neste ano também não dispensa o uso dos anos oitenta em suas produções. As três garotas da banda incorporam o estilo em suas canções, na maneira de se comportar no palco (já viram essas rosas incríveis?) e também na forma como se vestem. Os sintetizadores elétricos estão presentes nas músicas tanto quanto as jaquetas jeans estão em seus corpos, é uma banda pra ficar de olho no cenário musical, viu?

Collector’s Edition: não deixe de conferir toda a coletânea visual do disco, que traz as letras das músicas como legendas no vídeo, mas principalmente “Loudspeaker“, “End of Desire” e “Outro“.

Aly & AJ – Take Me

Na onda nostálgica dos revivals, a dupla Aly & AJ renasce das cinzas após uma longa década sem lançamentos musicais. Apesar da tentativa de contornarem as clausulas contratuais de sua antiga gravadora, quase lançando um disco folk com o nome 78Violet (que é bem interessante também), as loiras voltaram neste ano abraçando toda a sua história de sucesso no Disney Channel e lançaram o primeiro single do EP de retorno. “Take Me” é uma das melhores canções com a vibe oitentista que você írá ouvir em 2017 e o clipe, que foi totalmente gravado em uma câmera de 16mm, incorpora uma sátira vampírica. Tem algo mais trash que isso? Dá o play!

Charli XCX – Boys

Não existem palavras suficientes para descrever o clipe de “Boys”, da princesinha britânica Charli XCX. Se lá no “True Romance” ela já trazia nas músicas a sensação de inserção nos anos 80, neste novo single, Charli vai alguns anos à frente e incorpora algo mais noventista em sua sonoridade. Apesar de tudo, o clipe é recheado de colírios e o clipe também traz elementos estilizados na clássica fita VHS.

Fickle Friends – Hello Hello

Entre as descobertas deste ano está a banda Fickle Friends. A sonoridade do grupo é a mesma apresentada por quase todos neste post, mas a particularidade dos britânicos são as melodias upbeat que se misturam com letras que, nem sempre, compartilham do mesmo sentimento. O clipe de “Hello Hello” não tem a imagem tão deteriorada como consequência da referência ao VHS, mas em algumas transições de cena a estética se faz presente, assim como a decisão de gravar o clipe totalmente em tela 4:3.

Não levante a agulha do vinil antes de ouvir:Brooklyn“, “Cry Baby” e “Glue” – este último, também introduz elementos VHS entre diversas cores e letras no vídeo.

E claro, eu também entrei nessa onda! A cada mês tentarei trazer para o canal no Youtube um vídeo de compilado com os momentos (aleatórios?) do meu cotidiano e tudo isso… em VHS! O primeiro da série “VHS Tape” já está disponível e espero que vocês não enjoem de me ver comendo tanto doce.

 

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12/09/2017
por Douglas Vasquez
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À PRIMEIRA VISTA, 2017 | GALERA RECORD | 294 PÁGINAS | ISBN 9788501110749 | ⭐⭐⭐⭐


Já declarei minha paixão por livros do David Levithan por aqui antes, inclusive, já existem outras resenhas de livros escritos por ele no blog. David é um autor que costuma escrever livros Young Adult (YA) sobre adolescentes gays e o mundo em que vivem e neste, em parceria com a autora Nina LaCour – meu primeiro contato com ela -, vão além do óbvio, e a narrativa principal não aborda um romance, e sim uma amizade.

“À primeira vista” (“You Know Me Well”, original em inglês), conta a história de Mark e Kate, dois jovens que vivem em São Francisco e estão perdidamente apaixonados e presos em duas situações em que isso lhes causa medo. A história começa em um sábado e os capítulos se alternam entre os dois personagens, no início da Semana do Orgulho LGBT de São Francisco, a capital gay. Apesar do romance, o livro narra diversas nuances da amizade: a inesperada conexão entre Mark e Kate, que nunca haviam se falado antes; entre Mark e seu melhor amigo Ryan, pelo qual ele é apaixonado e entre Kate e sua melhor amiga, uma amizade extremamente frágil e conturbada. Os dois vivem como sombras de dois amigos que são, na maioria das vezes, o centro das atenções, guarde isso.

A narrativa da história é leve, característica forte entre os livros de David, que abordam com muita naturalidade o cotidiano da comunidade gay e apesar de irreal (afinal, tudo é permitido na literatura e isso é bom), me vi preso no livro e não larguei um minuto, terminando a leitura no mesmo dia. Mark está frustrado porque mesmo depois de várias saliências com Ryan, seu melhor amigo não vai além e formaliza um relacionamento a mais, isso faz com que ele tome medidas desesperadas para conquistar sua atenção, em raros atos de coragem, como subir no balcão de um bar para dançar apenas de cuecas – situação onde se depara com Kate, “amizade à primeira vista”.

Não sei como o processo de escrita em conjunto funciona, mas não senti grandes diferenças entre os capítulos escritos por Nina, autora do livro “Estamos Bem”, que tem apenas uma das capas mais lindas que eu já vi (Plataforma 21, eu quero!). Por estar inserido na comunidade, visualizei com facilidade as situações dos relacionamentos vividas pelos personagens, que não ganham muita profundidade além dos dois principais e Ryan, que por trás da persona destemida e animada, batalha com seus próprios medos e a dificuldade em se assumir dentro de casa.

“No contexto do nosso relacionamento, isso faz todo sentido: somos só amigos, exceto pelos momentos em que, ops, somos mais que só amigos. Não falamos sobre esses momentos, e eu acho que Ryan acredita que, se não falarmos sobre eles, significa que não acontecem.”

Há poucos momentos em que o livro beirou a linha do inacreditável. Kate, já está no último ano no ensino médio e foi aceita em uma universidade renomada para estudar artes plásticas (ela é pintora), mas está dividida entre ir e tirar um ano para se descobrir. Seu dilema principal é com si mesma e não envolve as ações de outras pessoas, por mais que ela acredite que este seja o problema. Extremamente insegura com suas próprias decisões, Kate viu sua vida moldada pelo que foi dito por sua melhor amiga, possessiva, que a convence de criar altas mentiras para impressionar a garota que está apaixonada, Violet.

Fugindo de todo o caos, Kate e Mark encontram uma solução muito, mas muito fantasiosa: com o contato de um fotógrafo em mãos, conseguem entrar em uma festa bem localizada, entre muitas celebridades que decidem, sem mais nem menos, torná-los instafamous. E no dia seguinte, Kate já é uma das artistas mais disputadas de São Francisco e Mark consegue causar em Ryan o que queria, inveja.

“Estou pronto para me perder, mas não estou pronto para perder você. Estou pronto para me encontrar, mas não estou pronto para que você saiba o que eu irei encontrar.”

Apesar de toda a fantasia, sonho de qualquer millenial, a trama central do livro é interessante e fica muito próxima de coisas que eu passo no dia a dia. Ambos decidem não correr e contar para os melhores amigos toda a aventura da noite anterior e em um ato de desespero, decidem que só contarão a verdade caso eles os perguntem, invertendo a situação.

É um livro jovem adulto muito leve, pensado para ser lido sem muita pretensão e que envolve muitas referências aos dias atuais, a vontade de ser ouvido e a busca pelo romance perfeito, cheio de frases publicáveis nas redes sociais. No fim das contas, Kate e Mark se descobrem em uma amizade forte, que não é pesada para nenhum dos lados, não há a vontade de contar vantagem sobre o outro e existe respeito pelas decisões, apoio e cumplicidade – características parte de uma boa amizade que não conheciam.

A história também deixa a lição de que seus melhores amigos também podem ter outros amigos, que podem se tornar (ou não), novos melhores amigos. Era a resposta para tudo o que eu precisava nos últimos dois anos.

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