28/09/2017
por Douglas Vasquez
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Dia desses na aula de História da Arte meu professor desatou a contar como a nossa sociedade é cíclica e desde então, isso não saiu da minha cabeça. Em vários momentos do meu cotidiano tenho notado o quanto, de fato, as coisas se repetem. E essas coisas variam bastante: desde a moda, conceitos políticos (estamos vivendo um tempo terrível onde o conservadorismo retorna once again), séries e filmes (tem exemplos mais fortes do que Stranger Things e a onda de remakes e revivals por todo lado?) e até mesmo na música, que é o tema principal desse post.

Em agosto eu escrevi um post sobre o retorno saudosista das fitas VHS e mesmo antes disso eu já tinha notado a estética do vídeo em fita em diversos videoclipes. Então, por que não aproveitar a onda e trazer os meus favoritos pra cá? Pegue os fones de ouvido, sente-se de forma confortável (ou pegue suas polainas pra dançar) e vem comigo!

Bonnie McKee – Thorns

De todas as cantoras atuais, acredito que Bonnie seja a que mais abraça a estética oitentista em suas produções audiovisuais. Em seu primeiro EP, “Bombastic”, a vibe veio com tudo em diferentes variações em todos os videoclipes produzidos para as faixas. A fotografia e a produção artística do clipe de “Easy”, minha música favorita da cantora, é impecável e apesar de não trazer o efeito do VHS, incorpora bastante da transição dos anos 70 e 80 em suas cores e figurino. Em seu novo trabalho, supostamente para o seu segundo disco (só acredito quando estiver com ele nas mãos, viu?), Bonnie resgata em “Thorns” a produção da época, da sonoridade da música à simplicidade das cenas no clipe. Além de tudo isso, Bonnie é um hino de hitmaker, vai ouvir!

Extended Edition: veja “Easy“, “Wasted Youth“, “I Want It All” e “Bombastic“.

MUNA – In My Way

Completamente gravado com o aplicativo Camcorder (que eu amo!), a banda queer que me pegou e me balançou de jeito neste ano também não dispensa o uso dos anos oitenta em suas produções. As três garotas da banda incorporam o estilo em suas canções, na maneira de se comportar no palco (já viram essas rosas incríveis?) e também na forma como se vestem. Os sintetizadores elétricos estão presentes nas músicas tanto quanto as jaquetas jeans estão em seus corpos, é uma banda pra ficar de olho no cenário musical, viu?

Collector’s Edition: não deixe de conferir toda a coletânea visual do disco, que traz as letras das músicas como legendas no vídeo, mas principalmente “Loudspeaker“, “End of Desire” e “Outro“.

Aly & AJ – Take Me

Na onda nostálgica dos revivals, a dupla Aly & AJ renasce das cinzas após uma longa década sem lançamentos musicais. Apesar da tentativa de contornarem as clausulas contratuais de sua antiga gravadora, quase lançando um disco folk com o nome 78Violet (que é bem interessante também), as loiras voltaram neste ano abraçando toda a sua história de sucesso no Disney Channel e lançaram o primeiro single do EP de retorno. “Take Me” é uma das melhores canções com a vibe oitentista que você írá ouvir em 2017 e o clipe, que foi totalmente gravado em uma câmera de 16mm, incorpora uma sátira vampírica. Tem algo mais trash que isso? Dá o play!

Charli XCX – Boys

Não existem palavras suficientes para descrever o clipe de “Boys”, da princesinha britânica Charli XCX. Se lá no “True Romance” ela já trazia nas músicas a sensação de inserção nos anos 80, neste novo single, Charli vai alguns anos à frente e incorpora algo mais noventista em sua sonoridade. Apesar de tudo, o clipe é recheado de colírios e o clipe também traz elementos estilizados na clássica fita VHS.

Fickle Friends – Hello Hello

Entre as descobertas deste ano está a banda Fickle Friends. A sonoridade do grupo é a mesma apresentada por quase todos neste post, mas a particularidade dos britânicos são as melodias upbeat que se misturam com letras que, nem sempre, compartilham do mesmo sentimento. O clipe de “Hello Hello” não tem a imagem tão deteriorada como consequência da referência ao VHS, mas em algumas transições de cena a estética se faz presente, assim como a decisão de gravar o clipe totalmente em tela 4:3.

Não levante a agulha do vinil antes de ouvir:Brooklyn“, “Cry Baby” e “Glue” – este último, também introduz elementos VHS entre diversas cores e letras no vídeo.

E claro, eu também entrei nessa onda! A cada mês tentarei trazer para o canal no Youtube um vídeo de compilado com os momentos (aleatórios?) do meu cotidiano e tudo isso… em VHS! O primeiro da série “VHS Tape” já está disponível e espero que vocês não enjoem de me ver comendo tanto doce.

 

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12/09/2017
por Douglas Vasquez
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À PRIMEIRA VISTA, 2017 | GALERA RECORD | 294 PÁGINAS | ISBN 9788501110749 | ⭐⭐⭐⭐


Já declarei minha paixão por livros do David Levithan por aqui antes, inclusive, já existem outras resenhas de livros escritos por ele no blog. David é um autor que costuma escrever livros Young Adult (YA) sobre adolescentes gays e o mundo em que vivem e neste, em parceria com a autora Nina LaCour – meu primeiro contato com ela -, vão além do óbvio, e a narrativa principal não aborda um romance, e sim uma amizade.

“À primeira vista” (“You Know Me Well”, original em inglês), conta a história de Mark e Kate, dois jovens que vivem em São Francisco e estão perdidamente apaixonados e presos em duas situações em que isso lhes causa medo. A história começa em um sábado e os capítulos se alternam entre os dois personagens, no início da Semana do Orgulho LGBT de São Francisco, a capital gay. Apesar do romance, o livro narra diversas nuances da amizade: a inesperada conexão entre Mark e Kate, que nunca haviam se falado antes; entre Mark e seu melhor amigo Ryan, pelo qual ele é apaixonado e entre Kate e sua melhor amiga, uma amizade extremamente frágil e conturbada. Os dois vivem como sombras de dois amigos que são, na maioria das vezes, o centro das atenções, guarde isso.

A narrativa da história é leve, característica forte entre os livros de David, que abordam com muita naturalidade o cotidiano da comunidade gay e apesar de irreal (afinal, tudo é permitido na literatura e isso é bom), me vi preso no livro e não larguei um minuto, terminando a leitura no mesmo dia. Mark está frustrado porque mesmo depois de várias saliências com Ryan, seu melhor amigo não vai além e formaliza um relacionamento a mais, isso faz com que ele tome medidas desesperadas para conquistar sua atenção, em raros atos de coragem, como subir no balcão de um bar para dançar apenas de cuecas – situação onde se depara com Kate, “amizade à primeira vista”.

Não sei como o processo de escrita em conjunto funciona, mas não senti grandes diferenças entre os capítulos escritos por Nina, autora do livro “Estamos Bem”, que tem apenas uma das capas mais lindas que eu já vi (Plataforma 21, eu quero!). Por estar inserido na comunidade, visualizei com facilidade as situações dos relacionamentos vividas pelos personagens, que não ganham muita profundidade além dos dois principais e Ryan, que por trás da persona destemida e animada, batalha com seus próprios medos e a dificuldade em se assumir dentro de casa.

“No contexto do nosso relacionamento, isso faz todo sentido: somos só amigos, exceto pelos momentos em que, ops, somos mais que só amigos. Não falamos sobre esses momentos, e eu acho que Ryan acredita que, se não falarmos sobre eles, significa que não acontecem.”

Há poucos momentos em que o livro beirou a linha do inacreditável. Kate, já está no último ano no ensino médio e foi aceita em uma universidade renomada para estudar artes plásticas (ela é pintora), mas está dividida entre ir e tirar um ano para se descobrir. Seu dilema principal é com si mesma e não envolve as ações de outras pessoas, por mais que ela acredite que este seja o problema. Extremamente insegura com suas próprias decisões, Kate viu sua vida moldada pelo que foi dito por sua melhor amiga, possessiva, que a convence de criar altas mentiras para impressionar a garota que está apaixonada, Violet.

Fugindo de todo o caos, Kate e Mark encontram uma solução muito, mas muito fantasiosa: com o contato de um fotógrafo em mãos, conseguem entrar em uma festa bem localizada, entre muitas celebridades que decidem, sem mais nem menos, torná-los instafamous. E no dia seguinte, Kate já é uma das artistas mais disputadas de São Francisco e Mark consegue causar em Ryan o que queria, inveja.

“Estou pronto para me perder, mas não estou pronto para perder você. Estou pronto para me encontrar, mas não estou pronto para que você saiba o que eu irei encontrar.”

Apesar de toda a fantasia, sonho de qualquer millenial, a trama central do livro é interessante e fica muito próxima de coisas que eu passo no dia a dia. Ambos decidem não correr e contar para os melhores amigos toda a aventura da noite anterior e em um ato de desespero, decidem que só contarão a verdade caso eles os perguntem, invertendo a situação.

É um livro jovem adulto muito leve, pensado para ser lido sem muita pretensão e que envolve muitas referências aos dias atuais, a vontade de ser ouvido e a busca pelo romance perfeito, cheio de frases publicáveis nas redes sociais. No fim das contas, Kate e Mark se descobrem em uma amizade forte, que não é pesada para nenhum dos lados, não há a vontade de contar vantagem sobre o outro e existe respeito pelas decisões, apoio e cumplicidade – características parte de uma boa amizade que não conheciam.

A história também deixa a lição de que seus melhores amigos também podem ter outros amigos, que podem se tornar (ou não), novos melhores amigos. Era a resposta para tudo o que eu precisava nos últimos dois anos.

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04/09/2017
por Douglas Vasquez
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A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER, 2017 | CIA DAS LETRAS | ISBN CAPA DURA 978-85-359-2883-9 | ⭐⭐ 


“A insustentável leveza do ser” é um livro considerado clássico. Para a minha vergonha (ou não, sinceramente), eu nunca fui muito atraído pela literatura clássica, nunca fez tanto sentido a obrigatoriedade e também nunca fiz questão de me “forçar” a ler algum livro que se encaixe nessa categoria. Neste ponto, você deve estar imaginando que eu nunca toquei em um livro de Machado de Assis ou então, de Fernando Pessoa e você acertou – nunca os li, talvez um dia.

O livro aclamado de Milan Kundera foi então o meu primeiro livro clássico e confesso, a arte da nova edição em capa dura da Companhia das Letras e a grande questão que cerca o livro muito bem vendida pela sinopse me fizeram escolher o livro entre tantos outros do catálogo da editora. “Será mesmo atroz o peso e bela a leveza?“, questiona o autor já no início do livro, logo na terceira página, e após ler mais 332, continuo me fazendo a mesma pergunta, sem chegar à lugar algum. Talvez a minha estreia na literatura clássica tenha sido o problema, a minha falta de familiaridade com uma obra “cult” e um autor superestimado.

A LEVEZA E O PESO: Há beleza no meio do caos

Colocando meus problemas com o ritmo da história de lado, existem alguns pontos no livro que me agradaram e chamaram a minha atenção. Kundera escreve de forma que não apenas narra a história em terceira pessoa, mas também se insere na narrativa do livro. Durante alguns momentos ele nos conta como surgiram os personagens e explica o porquê dos seus conflitos internos, sempre se baseando no contexto histórico e político da nossa sociedade, na vida real.

“E, mais uma vez, vejo-o como me pareceu no começo deste romance. […] Ele nasceu dessa imagem. Como já disse, os personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta ou sobre a qual nada essencial foi dito. Mas não se costuma dizer que o autor só pode falar de si mesmo?”

“A insustentável leveza do ser” narra a jornada de quatro personagens — Tomas, Tereza, Sabina e Franz —  de forma não-linear, assim somos informados dos acontecimentos da vida de cada um conforme os próprios personagens os descobrem, como por exemplo, a morte de Tomas e Tereza (o casal que teve maior destaque durante a história). Sabina recebe uma carta do filho bastardo de Tomas anos depois de seu affair com o cirurgião, quando já está vivendo em outro continente, enquanto mais pra frente no livro, “voltamos no tempo” para o autor contar a trajetória de ambos a partir do momento em que havia parado antes de passar para a narrativa de Sabina, e assim por diante.

Tendo início por volta de 1968, a história acompanha a vida dos quatro personagens, que vivem na Europa, por até em torno de 20 anos, na década de 1980. Tomas e Tereza iniciam seu relacionamento logo no início do livro e perdura até o final, mesmo com um pequeno rompimento de alguns anos. Tomas é médico cirurgião respeitado, que vai ver sua carreira em risco por problemas políticos ao longo do livro, além de um completo mulherengo que alega que seus relacionamentos sexuais nada interferem em seu relacionamento afetivo e amoroso com Tereza,  que sabe de tudo, confidenciando diversas vezes para ele que seus casinhos a machucam profundamente, mas continuam juntos. Tereza por sua vez, é uma mulher completamente sensível e luta com problemas de auto-confiança e falta de auto-estima pela maneira que fora criada pela mãe e é tratada pelo marido.

“Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na estrada do tempo e que além dessa linha o sofrimento presente deixará de existir. Mas Tereza não via essa linha diante de si. Só podia encontrar consolo olhando para trás.”

Sabina foi brevemente amante de Tomas, mas é seu relacionamento (também extra-conjugal) com Franz que tem o maior impacto na história. Ao contrário de Tereza, Sabina é uma mulher forte, artista plástica, sabe o que quer e vai atrás, mesmo que signifique abandonar tudo o que tem para seguir em frente. Franz é o contrário de Tomas e após seu relacionamento com Sabina se vê completamente fragilizado pela insensibilidade da amante. Mesmo depois de anos, quando Sabina já nem mais pensa nele, Franz continua vivendo sua vida imaginando estar sobre os olhos de aprovação da amante.

É um livro sobre relacionamentos e sobretudo relacionamentos pessoais. Achei difícil me conectar com todos os personagens e me vi lendo o mesmo parágrafo diversas vezes, em busca de sentido. Fiquei incrédulo durante a leitura, que não conseguia me ligar com a história e tornar a leitura agradável. Busquei diversas resenhas e vídeos e fiquei mais incrédulo ainda quando encontrei na maioria delas, opiniões positivas e mil elogios ao livro, afinal, o que há de errado comigo?, pensei. Em uma delas encontrei a possível resposta. A Mia, do blog Wink, é apaixonada pelo livro e recentemente fez um releitura, depois de alguns anos, e confirma tudo o que eu havia dissertado sobre o livro. É um livro de timing, nas palavras dela, “tem histórias que precisam ser lidas na hora certa.” E talvez esta não tenha sido a minha hora.

“Assim, escreveu em seu testamento determinando que seu cadáver seja cremado e as cinzas espalhadas ao vento. […] Ela quer morrer sob o signo da leveza. Será mais leve que o ar. Segundo Parmênides, é a transformação do negativo em positivo.”

Apenas no terço final do romance que me encontrei intrigado com o desfecho da história, me peguei perguntando o que será que irá acontecer com Tereza? Será que irá superar seus medos pessoais de abandono e seguir em frente, com Kariênin, a cadela? De todos os quatro foi ela que me manteve com o livro na bolsa, pronto para ser lido a qualquer momento. Tereza é muito parecida comigo em diversos momentos. Ela utiliza dos livros para escapar de sua realidade e os sentimentos são o maiores pesos de sua vida. Se importasse de alguma coisa dentro da história, diria que Tereza também é canceriana, assim como eu, pois prioriza mais do que tudo o que sente dentro de si e a sua intuição.

Talvez um dia eu dê uma segunda chance ao clássico de Milan Kundera. Eu nunca escrevi uma resenha ruim para um livro e apesar dos pesares, acho que dificilmente esta se encaixa na categoria. No meu tempo com o livro (árduos dois meses) eu encontrei problemas e dificuldade de me conectar com a história, mas talvez seja apenas eu e minha falta de experiência na leitura de clássicos. Fica a seu critério se te interessa entrar na vida dos quatro europeus em busca do equilíbrio entre o peso e a leveza — e se entrar, venha me contar seus pensamentos.

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