29/01/2018
por Douglas Vasquez
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Tenho sentido a necessidade de falar, sempre, o que estou pensando.

Percebi nos últimos meses que a minha opinião é válida e que para o meu bem, deve se vocalizada. Cansei de ver meus sonhos e as coisas que idealizo na minha cabeça passarem batido por outras pessoas por falta da minha fala. “Ei, mas eu tenho uma opinião diferente da sua”; essa frase me rendeu ótimos debates e momentos de um crescimento pessoal excepcional no último ano.

Em 2017 resolvi abraçar ainda mais a minha paixão por cinema e comecei a debater sobre o assunto e a mergulhar nas conversas que giram em torno dos filmes. Sem tentar nem um pouco ser “cult”, afinal, todo mundo sabe que eu adoro uma farofa, seja na música ou no cinema. Isso me trouxe um programa sobre cinema no rádio (que na internet foi abençoado carinhosamente de podcast, sempre quis ter um) e recentemente, um projeto de programa para a televisão (!) e um pseudo canal no Youtube. Tenho me sentido muito bem sobre isso, obrigado. Mas a conversa aqui não é sobre isso, todo mundo que me acompanha nas redes sociais já sabe dos dois produtos — feitos com muito carinho e por gente que ama.

Nessa corrida para ver os filmes do Oscar e me colocar por dentro da maior premiação sobre cinema que todo mundo adora dar pitaco, mas na real, não entende quase nada, eu me envolvi com mais filmes do que antes e entre eles, dois conseguiram me pescar pela alma como nenhum outro antes na minha vida de ~jovem adulto que em alguns meses terá uma profissão real oficial~, eles são Lady Bird e Call Me By Your Name.

Os dois se tornaram meus comfort movies da vida jovem adulta (cês acham ridículo falar isso? acho estranho) e tocaram tão profundamente a minha alma que eu sinto um aperto no coração só de lembrar. Há pelo menos cinco anos eu não me envolvo romanticamente com ninguém, parte por escolha e medo das consequências (as experiências não foram tão animadoras por aqui) e parte por preguiça mesmo, talvez até falta de interesse em mim por parte das outras pessoas. Dá até uma dorzinha admitir isso.

Lady Bird fala muito sobre quem eu fui e quem eu poderia ter sido se não tivesse tido medo de falar na maioria das vezes. Ela vive uma vida que não gostaria e cria, mentindo para as outras pessoas, a vida perfeita para si. Por muitos anos na adolescência eu fui assim, old habbits die hard, eu sei. O caso é que Lady Bird fantasia sua realidade e a molda de forma que se encaixe em uma versão mais suportável para seguir o dia a dia. Ela não gosta da cidade em que mora e sonha estudar em Nova York “onda está a cultura”, como diz logo no início do filme. É uma cena que eu já sei de cor e salteado, um cenário que eu vivi por tantos anos (e se for pra falar a verdade, ainda vivo) e uma discussão que eu tive constantemente com os meus pais.

Ela tenta de tudo para se encaixar, ela conversa com as pessoas e se envolve em situações que nem ela mesma acaba sabendo como foi parar lá. A acsa cai, óbvio, mas Lady Bird aprende no final do filme que home is were your heart is.  Lady Bird vocaliza tudo o que sente, o que pensa e o que gostaria que fosse realidade de forma autêntica e confiante, e é aí que está a nossa grande diferença. Eu tive os meus momentos de surto sarcástico dentro de casa e vi no filme muitas das brigas que tive com a minha família, mas na maior parte do meu dia, não é meu sol em câncer que fala mais alto, manipulando a realidade de forma sutil para que ninguém perceba (sometimes), é a forma como Elio, de Call Me By Your Name, lida com sua vida que a minha mais se assemelha hoje em dia.

Elio é mais na dele, batalha internamente com seus pensamentos e acaba externalizando tudo de forma errada, que acaba o fazendo perder muito do tempo que poderia ter passado com Oliver por optar por não falar, mas presumir as atitudes alheias e quebrar a cara no final de tudo. “Should I confess? I’m a mess, I’m a mess of mistakes”, é o que canta Katy Perry em “Brick by Brick” enquanto escrevo esse texto. Não poderia ser mais verdade.

Eu chorei copiosamente enquanto assisti a esses dois filmes e eles me fizeram companhia no último mês, como nenhum filme fez em um longo tempo. Consigo enxergar outras alternativas em situações em que eu manteria minha boca fechada. Aos poucos, aprendo a escolher os momentos em que devo ser Elio e os momentos em que devo ser Lady Bird.

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23/12/2017
por Douglas Vasquez
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É difícil começar esse texto, assim como têm sido difícil escrever qualquer coisa ultimamente mesmo que eu tenha precisado soltar algumas coisas daqui de dentro. Antes de criar esse blog, há 4 anos atrás (o tempo passa voando, né?), eu tinha um blog que era pra ser particular, onde eu escrevia tudo o que estava sentindo. Era uma época difícil na minha vida, eu vivia um momento de estagnação pós-ensino médio e tinha acabado de sair do meu primeiro emprego, então toda essa vida de “pessoa que está entrando na vida adulta” estava me deixando sem saber para onde correr. Eu tinha pessoas na minha vida que naquele momento, eu acreditava serem para sempre, mas que no fim, só acrescentaram lições de quem eu não quero ser pra os outros no dia seguinte. Eu vivia em um relacionamento que não tinha base, não tinha um chão sólido e eu me deixava levar por qualquer palavrinha escrita nas redes sociais: resumindo, me ferrei bonito.

Quando aquele ciclo acabou, eu decidi começar um novo. Pegar tudo o que eu havia aprendido e melhorar o que eu viveria no futuro. Durante aquele período eu escrevi bastante, mesmo quando estava esgotado, eu me forçava a escrever e me liberar daquela energia que me perseguia e quando eu coloquei o ponto final naquele capítulo, também joguei fora a caneta psicológica que me fazia escrever. Desde então, não escrevi nenhuma crônica sobre a minha vida que fosse tão fundo nos meus sentimentos.

Mas ultimamente eu tenho sentido a necessidade de ser mais aberto e escrever em um diário. É uma meta para 2018 que eu quero muito cumprir e talvez levar vocês nessa jornada comigo. A intenção desse texto não é essa, na verdade, e nem fazer uma retrospectiva de 2017 — que em muitos pontos foi bom pra mim, mas vou comentar sobre ele mesmo assim.

Esse ano foi cheio de grandes surpresas e mini-vitórias conquistadas. Eu percebi que não preciso de um relacionamento amoroso para escrever sobre amor, ou sobre qualquer outra coisa, pra ser sincero, mas por muito tempo eu achei que sim. Perceber isso foi como um estalo, assim, do nada, e por isso a vontade de manter um diário no ano que vem. Eu sempre fui uma pessoa que escreve e por mais que pareça uma falta de modéstia dizer isso, sempre fui muito elogiado pelas pessoas a minha volta sobre isso. Talvez eu devesse ouvir essas pessoas e confiar mais nisso, reconhecer que o que escrevo também é válido.

Aprendi a dizer mais o “sim” para coisas que eu quero fazer na vida. Eu nunca fui do tipo impulsivo e acredito que isso não esteja em mim, mas entendi que em alguns momentos não pensar demais é necessário. Neste ano eu fui a 8 shows de artistas que adoro muito e comprei todos os ingressos sem pensar muito em “pedir permissão” ou me preocupar em como iria e voltaria da capital. Uma grande vitória, se você é alguém que me conhece por muitos anos vai entender. Perdi a conta de quantos shows eu desejei e não fui por causa da opinião e decisão dos meus pais, eles sempre foram muito céticos quando o assunto é ir a um lugar cheio de pessoas desconhecidas. Não vou dizer que eles ficaram felizes com os OITO (são muitos pra quem tinha ido em apenas 1 até o ano passado), mas eu fiquei muito. E isso já basta.

2017 foi tão bom comigo que me proporcionou a oportunidade de ir em shows de pessoas que eu achava que nunca iria na minha vida! Se você me dissesse no começo do ano que eu veria a Sandy ao vivo, em um espetáculo tão lindo quanto ela, ou que eu iria a um show do Rouge, que marcou TANTO a minha infância e moldou bastante quem eu sou hoje, eu não acreditaria em você.

A faculdade entrou em reta final agora que estou prestes a começar o quarto e último ano. Nesses dois últimos semestres me deparei com várias experiências frustrantes nas aulas, principalmente na de televisão, como contei para vocês há alguns meses. Na hora tudo parece terrivelmente ruim e eu, que sou bem dramático, o fim do mundo. Mas foram momentos importantes e decisivos que me lembraram que nem sempre eu vou acertar as coisas de primeira e que lá fora, no mercado de trabalho, essas coisas são diferentes. Eu superei a câmera e agora eu consigo tirar de letra as gravações ~mais jornalísticas~ e a grande prova disso, é que eu tive que me virar nos 30 (segundos), literalmente, para entrar em um link ao vivo no trabalho por diversas vezes desde então. Agora quando me chamam eu nem pondero mais, muito pelo contrário, vou com um sorriso. E se você quer saber o desfecho das aulas de televisão, pode ver o jornal que fizemos completo que eu fui o âncora. As gravações foram super rápidas, eu tinha o texto na ponta da língua e superei o medo de parecer um robô lendo o TP, na minha primeira experiência gravando com ele.

Faculdade é inclusive, algo que quero escrever mais sobre. Essa era a meta desde o início e é um dos temas mais procurados aqui no blog. Me cobrem!

Já que eu comecei a falar de jornalismo, não posso esquecer de dizer que agora trabalho na área. Eu não adorava o meu trabalho anterior, na verdade, perdi a conta de quantos dias eu chorei por ter que ir para lá, que por um tempo era insuportável. Consigo contar nos dedos as pessoas que sinto um carinho real mesmo depois da minha saída e que sei, sentem o mesmo por mim. Em maio eu prestei um concurso de estágio para a RTV Unicamp e passei, foi a melhor coisa que me aconteceu em 2017 sem duvidas. Conheci pessoas novas que fazem bem para o meu dia a dia, aprendo coisas novas todos os dias, aperfeiçoo o que aprendo na faculdade com a liberdade que (felizmente) meu chefe me dá para criar e fazer coisas diferentes. Já contei que agora tenho um podcast? Nem preciso dizer muito, os risos que tenho quando edito os vlogs da VHS Series já entregam tudo.

2017 está acabando, mas é só o começo.

Gratidão.

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14/11/2017
por Douglas Vasquez
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QUINZE DIAS, 2017 | VITOR MARTINS | GLOBO ALT | 208 PÁGINAS | ISBN: 9788525063151 | ⭐⭐⭐⭐⭐


“Quinze Dias” é o romance de estreia do booktuber (e agora autor, né?) brasileiro, Vitor Martins e é o encontro perfeito de dois dos meus autores favoritos, Rainbow Rowell e David Levithan. É claro desde o início como o Vitor se preparou para escrever o romance, não apenas tendo uma grande bagagem de livros YA, o que é bastante perceptível na leitura do livro, o conhecimento em livros jovens adultos, mas também sinto que psicologicamente o autor se libertou de diversos paradigmas e colocou nas páginas da história de Felipe várias de suas inseguranças — algo que contribuiu muito para a riqueza da história e a empatia que sentimos com o protagonista no decorrer dos quinze dias.

“Eu sou gordo. Eu não sou “gordinho” ou “cheinho” ou “fofinho”. Eu sou pesado, ocupo espaço e as pessoas me olham torto na rua.”

O tempo delimitado por Vitor para contar a história é um dos pontos interessantes sobre seu livro. Como sugere o título do romance, todo o arco de Felipe acontece dentro de quinze dias, que o curto período de férias escolares que os personagens tem. A decisão de limitar a história a acontecer dentro dessas duas semanas foi uma das melhores decisões tomadas, pois dessa forma, todo o contexto se justifica e o livro se torna coeso, sem nada a mais e nem um pouco de encheção de linguiça.

Em “Quinze Dias”, publicado pela Globo Alt, Felipe é um garoto gordo que tem problemas de auto-estima e por isso, não tem amigos na escola, um ambiente que se assemelha a tortura para ele. Quando o primeiro dia dessas férias chega, Felipe tem plena convicção de que passará todo o tempo deitado em sua cama colocando os episódios de suas séries em dia, uma pausa de todo o tormento que vive no dia a dia, mas quando menos espera, sua mãe o conta que o filho da vizinha, Caio, ficará hospedado com eles até que seus pais voltem de férias. Acontece que Caio é o crush de Felipe desde sempre e a sua lista de inseguranças vem a tona e seus “dias de paz” parecem cada vez mais distantes.

“- Um dia você aprende a gostar mais de quem você é, e isso vai refletir em como as outras pessoas vão te enxergar. Gente babaca vai existir para sempre, mas a gente aprende a resistir.”

Os pontos altos da história são os personagens cativantes escritos por Vitor. Por conter poucos, Vitor teve a oportunidade de adicionar camadas em cada um deles, aprofundando em suas inseguranças e certezas, é impossível não sentir empatia e se relacionar com algum deles. A narrativa em primeira pessoa é também um enorme ponto positivo. Vitor encontrou a voz perfeita para Felipe, que apesar de tão inseguro, é um garoto super hiper mega engraçado e cheio de referências à cultua pop (um livro que tem um flamingo pink chamado Harry Styles ganha meu coração no mesmo instante), fez com que a leitura do livro fosse dinâmica e com que eu terminasse ele inteiro no mesmo dia.

Vitor soube abordar com clareza e profundidade diversos assuntos importantes presentes na nossa sociedade atual e grande parte do cotidiano de um jovem adolescente como Felipe e sua turma, como bullying, sexualidade e a descoberta de um mundo novo ao se tornar independente. Enquanto se adapta à convivência com Caio, Felipe aprende que é uma pessoa amada por sua família e amigos e quando o romance com Caio se desenvolve, Felipe também aprende que nem sempre a sua verdade é a verdade definitiva — por quê Caio não se apaixonaria por ele, afinal? A questão da sexualidade (Vitor é assumidíssimo para a mãe, enquanto Caio, não) é tocada de forma sutil e Vitor não faz dela uma grande coisa, apenas um detalhe natural na vida dos dois personagens.

“Não se apaixone por uma pessoa que não faça com que você se sinta lindo. Não to falando que o cara precisa te dizer o tempo todo que você é perfeito e maravilhoso. Não é isso. Mas quando você se sente lindo só de estar perto da pessoa, aí, filho, é muito mais fácil. […] Porque você está com uma pessoa que não aponta os seus defeitos. Não faz você se sentir pior. Não repara naquela estria na bunda que nem você tinha reparado até então. Porque essa pessoa enxerga a melhor parte de você. ”

Uma grande sacada de Vitor ao desenvolver o livro, foi a de descentralizar a narrativa de Felipe, mesmo que ele ainda seja o personagem principal da história. Nos momentos em que os dois passam com a mãe de Felipe, assistindo Hairspray ou nos momentos em que aparece a personagem fan favorite, Beca, a narrativa se torna ainda mais divertida e cheia de referências, como se Vitor estivesse se soltando também como autor. Felipe aprende que outras pessoas também sentem o mesmo que ele sente e que também passam por dilemas parecidos, cada mente é um universo gigantesco.

Vitor Martins não poderia ter estreado na literatura brasileira de melhor forma. “Quinze Dias” é caprichado e muito bem elaborado sem soar cansativo, unindo as melhores qualidades dos dois autores que mencionei lá em cima e utilizando-as a seu favor. Que venham mais livros de Vitor por aí, nossa literatura agradece. 

O mundo inteiro é seu. 

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